A cachorra

Por: Adassa Buschini Prado | Em: 28 / março / 2022

Nos últimos anos, temos notado no mercado editorial um crescimento de livros que abordam o tema da maternidade. Entre muitos títulos, A cachorra, romance escrito pela colombiana Pilar Quintana, destaca-se pela perspectiva sombria e dolorosa – sugerida logo na capa da edição brasileira. A obra estreou em julho de 2017, mas no Brasil o livro só foi publicado em 2020 pela Editora Intrínseca. 

Composto por breves capítulos, a narrativa inicia-se com a decisão de Damaris em adotar uma cachorra recém-nascida cuja mãe tinha sido morta. É a partir desse acontecimento que os leitores passam a conhecer a angustiante vida de Damaris na vila costeira da Colômbia ao lado de seu marido,  Rogelio, um humilde e bruto pescador.  A moradora dessa região isolada e miserável é atormentada por medos, perdas e principalmente, pela frustração de não conseguir engravidar. Depois de frequentes tentativas e diversos tratamentos supersticiosos, a adoção da cachorrinha desperta em Damaris sentimentos díspares.

Curiosamente A cachorra é uma obra que discute a maternidade sob o olhar de uma mulher infértil. Dessa maneira, a obra evoca o instinto materno quanto uma construção social e não um fato biológico. Há em Damaris, como em muitas outras mulheres, um desejo pulsante de exercer a maternidade. Não é à toa que hoje em dia há “mães de pet, de planta etc.”, pois os destinos das mulheres ao longo dos séculos foram suprimidos pela promessa da maternidade como realização pessoal hegemônica.

No entanto, conforme vivida, a relação maternal engendra uma revoltante decepção melancólica já que se revela incapaz de justificar a vida das mulheres. O tempo, a preocupação e os zelos dedicados à cachorra adotada provocam em Damaris um sentimento de ingratidão quando o animal começa a fugir de casa. Assim, os leitores começam a enxergar uma mãe menos carinhosa e cada vez mais possessiva, invejosa e tirânica. A cachorra revira o ideal da mater dolorosa ainda tão presente em discursos contemporâneos sintetizados pelo axioma “Mãe é mãe”. 

Pilar Quintana, ao explorar o “dark side of the mother”, dessacraliza essa imagem mítica da mãe amorosa, acolhedora e benevolente que reside fortemente no imaginário coletivo. A violência que permeia cada capítulo é transmitida por meio de uma narração crua e concisa, provocando nos leitores, no mínimo, um contínuo desconforto. À primeira vista, pode ser perturbador saber que Pilar Quintana escreveu A cachorra enquanto amamentava seu filho. 

Por outro lado, compreendo que seja esta a função primordial da literatura: revelar os atos falhos, inconfessáveis e sórdidos com intuito de humanizar as pessoas. E é justamente destituindo a mãe desse adoratório que será possível aliviar o fardo tanto das mães quanto dos filhos. Admiro a coragem da autora ao apontar a luz em direção à face macabra da maternidade, pois contestar o papel materno é um debate que abala não só nossos afetos, mas sobretudo, a ordem social. Não poderia afirmar categoricamente que é um livro sobre maternidade, pois talvez estaria reduzindo a complexidade da personagem. Afinal, Damaris não é apenas mãe, ela é esposa, órfã, negra, pobre. Portanto, A cachorra é uma obra sobre desigualdade, luto, frustrações, amor & ódio (e o que está entre um e outro cujo nome não soubemos dar). Não se trata de um livro “nichado”, muito pelo contrário, é um texto que comunica a todos nós, filhos da mãe, da puta, da sem-vergonha, d’A cachorra.