Semente originária

Por: Michelle Henriques | Em: 24 / janeiro / 2022

Meu primeiro contato com a escrita de Octavia E. Butler foi através de Kindred – Laços de sangue, aquele que talvez seja o livro mais famoso da autora. Nós o discutimos no Leia Mulheres SP e foi uma conversa muito interessante. A ficção científica na obra de Butler é apenas um plano de fundo para questões importantes que ela traz.

Recentemente a Editora Morro Branco (casa editorial da Butler aqui no Brasil) publicou Semente originária (com tradução de Heci Regina Candiani), livro que dá início à série O Padronista. Publicado originalmente em 1980 como quarto volume da série, ele é o primeiro em ordem cronológica de eventos, assim sendo lançado no Brasil.

Semente originária conta a história de dois seres imortais que se conhecem no continente africano: Doro e Anyanwu. Doro é um espírito que se apossa dos corpos de seres humanos, sem nenhum escrúpulo. Já Anyanwu é uma verdadeira matriarca, usa seus poderes e conhecimentos para ajudar as pessoas. Ela tem o poder de se transformar em qualquer ser humano ou animal.

Doro tem um plano: criar uma raça de superhumanos. Ele deliberadamente cruza pessoas que tenham x características para que elas tenham descendentes com poderes. Ele quer que Anyanwu o acompanhe até um de seus vilarejos, para usar habilidades dela em benefício próprio. Ele a convence com promessas que claramente não cumpre.

Assim como em Kindred, os temas de ficção científica e fantasia são apenas um plano de fundo para todas as discussões. Quando Anyanwu chega ao Novo Mundo, a escravidão toma conta daquelas terras. Ela, acostumada a ter seu próprio espaço na África, se vê subjugada aos poderes do homem branco.

Há também a questão da manipulação genética. Esse desejo de Doro de criar uma raça de humanos superpoderosos nos lembra alguns líderes fascistas que conhecemos ao longo da história. E ao comentar isso, Butler nos traz uma protagonista negra forte, dona de seu próprio destino. Sua relação com Doro é muito complexa, beirando o amor e o ´ódio, mas como ser diferente? Os dois únicos seres imortais do planeta, eles só podem contar um com o outro.

Vale comentar também que Octavia E. Butler é considerada por muitos estudiosos como a precursora do Afrofuturismo. Ela usa diversos costumes e pontos da cultura do continente africano em suas narrativas. Vemos isso o tempo todo em Semente originária.

A ficção científica sempre foi considerada um gênero literário dos homens, mas de uns anos para cá diversas escritoras importantes estão sendo (re)descobertas. Octavia E. Butler criou algo totalmente inovador dentro do gênero e segue como uma influência direta para muitos artistas até hoje.