Carne em delírio

Por: Flávia Regina Guedes Ribeiro | Em: 30 / agosto / 2021

Cassandra Rios é o pseudônimo de Odette Pérez Ríos, escritora brasileira de ascendência espanhola, considerada a autora que inaugurou o erotismo feminino da literatura brasileira. Recordista em vetos durante o regime militar, com 36 dos seus 50 livros publicados censurados, além algumas edições clandestinas, Cassandra jamais deixou de escrever, mesmo sendo perseguida, ameaçada e presa pelos militares.

Cassandra escrevia romances (ficção e mistério) com enfoque na sexualidade feminina. Seus principais temas eram a homossexualidade e o erotismo. Sua literatura fez vanguarda ao abordar “tabus sexuais” no final da década de 1940, quando publicou seus primeiros livros.

Carne em Delírio, é o segundo título publicado pela autora, em 1948, nele ela usa uma narrativa simples, novelesca e, por vezes, monótona, para contar a história da personagem Cristina, uma jovem rica e bonita que se encaixa perfeitamente no perfil feminino da esposa ideal vigente entre os anos 1950 e 1970. Atormentada por uma “paixão proibida”, sua vida afetiva gira em torno de episódios de submissão ao papel de esposa, incluindo ser considerada escória por ter engravidado antes do casamento, ter sofrido estupro marital e ter a expressão dos seus desejos eróticos realizados sob a égide da violência masculina, o que a faz crer pertencer ao homem que a deseja.

O olhar de Cassandra Rios sobre a sexualidade feminina é uma denúncia de como a violação dos nossos corpos e das nossas emoções nos tornam ignorantes de nós mesmas. A dificuldade da personagem em entender e nomear seus sentimentos, sua confusão mental e seu desespero em se sentir dependente de um homem escancaram uma opressão feminina ainda normalizada através das narrativas românticas. E é através dessas mesmas narrativas romântica que Cassandra Rios nos mostra como a sexualidade feminina pode ser tratada como algo doentio, perverso e promíscuo, independente da orientação sexual. Ou seja, mulheres cisgênero, absolutamente dentro dos padrões heteronormativos, também vivenciam distorções da sua sexualidade. Distorções estas impostas por essas mesmas regras heteronormativas. Parece que Cassandra Rios quer nos dizer que, embora a sexualidade das mulheres lésbicas seja alvo dos rótulos que patologizam a sexualidade feminina, isso não é exclusividade delas, todas nós vivenciamos isso em algum grau.