Autoras da casa: Ilmara Fonseca

Por: Leia Mulheres | Em: 5 / abril / 2021

Em março de 2021 o Leia Mulheres completa seis anos. Ao longo desse tempo, conhecemos o trabalho de muitas mediadoras do projeto, que também são talentosas escritoras.

Como uma forma de comemorar o nosso aniversário e para homenagear essas mulheres que se dedicam ao Leia Mulheres, decidimos divulgar o trabalho das mediadoras enquanto escritoras. Leia Mulheres, inclusive as que leem outras mulheres. :)

Dos silêncios

Sei que há palavras
Diminutivas, apertadas e sozinhas
Que vez por outra
Sonham em sair pela boca
Mas ficam quietas,
No calabouço das ideias
Compondo silêncios.

Respeito a quietude das palavras
Respeito o seu resguardo e
A sua clausura
E espero pelo dia
Em que saiam nuas
E, por pleno prazer
Caiam na rua, pulando a janela.

Respeito o silêncio
Como quem afaga uma flor
E tem
Cuidado com as suas pétalas
Que se sabem firmes,
Mas ao qualquer deslize
Mancham as nossas mãos
De seiva e perfume.

Respeito o silêncio
Como quem segura um pássaro
Como quem faz de duas mãos um ninho
E acolhe depressa o bichinho
Que a qualquer momento
Bate novamente as asas.

Respeito o silêncio
Como quem desfia uma longa conversa
Despida de temores e pressa
Sabendo decerto
Que o silêncio também diz
Tanta coisa, tanto verbo
O silêncio também é um diálogo eterno.

O silêncio também é… palavra.

Quase

Todas as vezes que você vai embora
Leva consigo um pouco de mim,
De meus sonhos, meus afetos,
Do que me instaura e me alimenta,
Matéria prima que me sustenta.

Todas as vezes que você vai embora
Eu fico menor do que antes era,
pequenina, agarro-me à quimera
que me faz sangrar o peito.

Aceito o pedaço de afeto
que me jogas ao chão,
e silencio na boca todos os nãos
que lutam para sair.

Todas as vezes que você vai embora
Eu me pergunto o motivo pelo qual veio,
E anseio pelo dia em que nunca haja o sim.

Todas as vezes que você vai embora
Despertam os fantasmas de outrora em mim
Sou eu essa brisa de nada, que se agarra suave
Ao retorno de um talvez ou um quase.

Todas as vezes que você vai embora
Morro agarrada ao inextensível fio
Que do meu coração não se solta.

Todas as vezes em que você vai embora
Você sempre volta.

Atriz

Finjo que não sinto
Finjo que não vejo
Escrevo
Um novo personagem
Invento
Sonhos bolorentos
Transcendo
Para uma nova imagem
Atriz
Do meu descontentamento

Ilmara Fonseca é professora, pedagoga e uma das mediadoras do Leia Mulheres Salvador desde 2016. Acredita na leitura como um ato político, por isso é uma leitora voraz e encontra nos livros apaziguamento para as agruras da vida. Arrisca um poeminhas de vez em quando e administra a página Conversa de Livro, no Instagram .  

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