Autoras da casa: Naiara Alves

Por: Leia Mulheres | Em: 15 / março / 2021

Em março de 2021 o Leia Mulheres completa seis anos. Ao longo desse tempo, conhecemos o trabalho de muitas mediadoras do projeto, que também são talentosas escritoras.

Como uma forma de comemorar o nosso aniversário e para homenagear essas mulheres que se dedicam ao Leia Mulheres, decidimos divulgar o trabalho das mediadoras enquanto escritoras. Leia Mulheres, inclusive as que leem outras mulheres. :)

O Banco

A manhã surge calma, em contraste à noite mal dormida. Desfruta na cama raro silêncio, repouso permitido a si mesma – vã tentativa de esquecer a enxaqueca latente. Logo levanta e despe o corpo nu do lençol morno, a seguir rotina. O espelho do banheiro denuncia que não havia nada pela frente: abandonara o emprego no dia anterior.

Na sala, é tomada por súbito mal-estar, um talvez espanto com a mudez da mobília. Tudo intocado, estanque, nada fora do lugar – só poeira a confessar o tempo. Rememora saudosa a escolha criteriosa de cada peça, nenhuma delas utilizada como havia planejado. Sonhada composição reduzida a morto preenchimento de espaço.

O despertador anuncia nove horas. Nove horas da manhã, repetia a si mesma, estirada na poltrona de leitura. Nove horas da manhã de um dia comum – explosões de culpa e liberdade. Sob a mesa da sala de jantar, a pilha de currículos impressos a serem distribuídos em busca de um novo trabalho. Hoje não, um tanto assustada com a ousadia do próprio tom.

Abre a geladeira, pronta para a primeira refeição do dia: ovos mexidos e café preto. Percebe que repetira mecanicamente a mesma combinação nos últimos anos, de forma impensada. Detestava ovos mexidos quando jovem, ao que cede mais tarde em nome do tempo – jogo rápido, frigideira e sal. Fecha então aquela porta, vou comprar alguns pães.

Caminha até a padaria, a perceber o mundo tão distinto no ritmo de uma manhã comum. Ignora os pães, me veja um maço de cigarros e este chocolate, que logo come enquanto assiste à moção. Era rítmica a pulsação de vida na rua, como se todos houvessem decorado, inconscientes, cada cena do grande espetáculo. Sorri.

A imagem do outro lado rompe a alegria instante. Ele continuava ali, o banco. O banco da tarde anterior, suporte do choque. Ali despertou, entardeceu com o tempo, luzes uma a uma se revelando. O banco. Ainda liso, ainda cinza, mais estanque talvez. Lembrou-se da mobília. Vou atravessar.

Sentou-se, sem conseguir esquecer a ausência anunciada. Só ela notava? Qual o sentido daquele instante? O que fazia com que ele, imóvel, vivesse à espreita de outras vidas? Quanto desgaste de si dispunha ao conforto alheio? Por que ele não gritava?

Um banco mudo. Uma vida toda muda.

O vento gélido toca seu rosto e causa nela arrepio santo. Acende o cigarro e sorve, pronta para submergir: a fumaça aspirada flui solta em sua mente, beijando cada pensamento intrincado. No caos urbano silenciado fecha os olhos, e então inala a vida que habitualmente tentava sufocar. Queria sentir. Precisava.

 Os passos secos ao redor não despertaram sua atenção – permaneceu imersa. Alternando tragar vento e cigarro, sentiu os nós de seu corpo se desfazerem um a um, corda que arrebenta tímida – o tipo de leveza que, há muito, não reconhecia. Quase como se Deus houvesse tirado um dia para soprar-lhe vida. O mundo, naquele instante, era também dela.

De costas ao movimento, fita o oceano. Entre céu e mar, a linha tênue que divisa o azul em substâncias tão distintas – ali sua própria vida. Metade cosmos, passado distante de sonhos, futuro em tela branca e as tintas da ilusão. Abaixo, solo. Matéria pura de mar, utopias liquefeitas.

Retorna ao apartamento, cambaleante em sensações inéditas. Os sons urbanos agora em desencanto, sinfonia dissonante. Encara ofegante o corredor que se revela enquanto a porta do elevador abre. Abraça o próprio corpo, tentando retomar o ar ausente. Abraça o próprio corpo e entra.

Num gesto cansado, atira-se no sofá. A apatia revinda a certificou de não reconhecer-se ali.  

– Meu Deus, mas que sede!

Lembrou-se que havia na dispensa uma garrafa de rum.

Naiara Alves tem 30 anos e nasceu em Franca, interior de São Paulo. É formada em Administração de Empresas e Letras/Literatura, especializada em revisão de textos e está, atualmente, escrevendo o seu primeiro romance. É também uma das mediadoras do clube de leitura Leia Mulheres Franca.

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