Autoras da casa: Mariana Paim

Por: Leia Mulheres | Em: 26 / março / 2021

Em março de 2021 o Leia Mulheres completa seis anos. Ao longo desse tempo, conhecemos o trabalho de muitas mediadoras do projeto, que também são talentosas escritoras.

Como uma forma de comemorar o nosso aniversário e para homenagear essas mulheres que se dedicam ao Leia Mulheres, decidimos divulgar o trabalho das mediadoras enquanto escritoras. Leia Mulheres, inclusive as que leem outras mulheres. :)

Vivendo com amor: uma leitura cruzada de Maya Angelou e bell hooks

Há um bom tempo o nome Maya Angelou surgia entre uma e outra leitura, como referência de uma mulher multiartista e militante, mas não poderia dizer que conhecia a sua trajetória e obra. Hoje, olhando em retrospecto, me parece no mínimo surreal que eu tenha demorando tanto tempo para poder de fato me aproximar de sua produção. Se o contato com a escrita de Maya é recente, os desdobramentos que sua literatura me provocou e provoca tiveram um longo alcance em minha subjetividade.

Li pela primeira vez o Mamãe & Eu & Mamãe assim que foi lançado, em 2018, e fiquei profundamente afetada pela maneira como ela (re) constrói na narrativa a sua relação com a mãe, a fascinante, Vivian Braxter e pelo seu olhar aguçado em torno das questões de seu tempo, principalmente acerca das dinâmicas de raça e gênero. Nessa autobiografia, Maya nos ensina que esta, que é lida sempre com o acento no gênero pessoal, pode ser mais… pois o lugar da experiência individual caminha e ecoa em direção a outras experiências comuns vivenciadas por mulheres negras. 

É pensando nesses atravessamentos de experiências que tento tecer esse texto, buscando aproximar a leitura do livro Mamãe & Eu & Mamãe, da Maya Angelou e o ensaio Vivendo de amor, da bell hooks, uma leitura que parece ser impossível de não ser cruzada.  Para além do fato das trajetórias das duas terem muito em comum, já que são ambas mulheres negras norte-americanas que vivenciaram de alguma maneira o contexto da segregação racial, foram militantes pelos direitos civis, escritoras, professoras e se empenharam em mais uma infinidade de outras atuações, me parece que os textos tentam se voltar para a mesma questão a partir de caminhos diferentes, ou nem tanto.

Nesse dois textos as duas partem e ressignificam a ideia de amor, politizando o debate sobre algo que comumente é posto em um campo meramente subjetivo e sentimental, em meio as vivencias de mulheres negras. bell hooks opera a nível ensaístico algo que Maya tensiona e reflete em sua narrativa de cunho autobiográfico, mas ambos os textos fluem para as mesmas descobertas e reflexões. Em Vivendo de amor, bell hooks afirma que “O amor cura. Nossa recuperação está no ato e na arte de amar.” (hooks, p. 1) e é a reconstrução desse processo de cura que acompanhamos na narrativa de Mamãe & Eu & Mamãe. Maya afirma diversas vezes o potencial de cura do amor, mas o considera também como um processo de libertação.

Nascida negra e pobre em uma sociedade hegemonicamente branca patriarcal e capitalista, Maya Angelou vivenciou uma série de experiências atravessadas pelo racismo e sexismo. A narrativa se divide em duas partes: em Mamãe & Eu, ela nos narra principalmente sua infância marcada por uma série de experiências dolorosas, como a separação e ausência da mãe, um estupro e o cotidiano da segregação racial vivenciado no estado do Arkansas, no sul dos EUA, local onde foi criada pela avó paterna, Annie, até os treze anos.

Maya foi morar com a avó após a separação de seus pais e da decisão, em comum, de que nenhum dos dois teria condições de cuidar dela e de seu irmão mais velho, Bailey Jr. O retorno ao convívio com a mãe se dá porque sua avó passou a achar que seria perigoso seu irmão, na época um jovem rapaz desafiador, continuar a viver em uma cidade tão marcada pelo ódio e violência racial. O retorno a casa da mãe não foi fácil, pois Maya experimentava sensações conflitantes acerca da Vivian, já que a atração que sua personalidade carismática, forte e cativante exercia, se contrastava com o sentimento de abandono do passado.

Mas aos poucos ela aprendeu a confiar e admirar a mulher extraordinária que sua mãe foi. Vivian não apenas demonstrava seu amor e cuidado pelos filhos, mas tentou sempre apoiar e incentivar Maya a agir com autonomia e a bancar suas decisões. Um dos momentos de virada na relação se dá quando Maya decide sair de casa aos 17 anos, após dar à luz a seu filho, resolução que Vivian apoiou e que somada a experiência da maternidade vivenciada pela própria Maya, faz com que ela desenvolva um outro olhar sobre Vivian, um movimento que é simbolizado com o ato de chamá-la de mãe. A segunda parte do livro, Eu & Mamãe, dá continuidade a narrativa após a experiência da maternidade de Maya, destacando a sua relação com a mãe e a maneira como ela contribuiu para o seu crescimento pessoal.

bell hooks tece sua reflexão em torno do lugar e sentido do amor na vida de pessoas negras a partir do imbricamento de algumas dimensões relacionadas ao racismo. Partindo dos efeitos causados pelo impacto da escravidão, ela afirma que estes foram determinantes para que a lógica de violência fosse posteriormente reproduzida entre as famílias negras, assim como foi decisivo para que o amor e outras emoções fossem vistas como um sinal de vulnerabilidade. A necessidade de reprimir as emoções no contexto da escravização, fez com que a demonstração do amor e do afeto ainda hoje ocupem, em boa parte do imaginário das pessoas negras, um lugar ambivalente, sendo vista como se esta se fizesse através meramente da garantia das condições básicas de sobrevivência.

Dinâmica que se torna visível ao acompanharmos a forma como Annie se relacionava com Maya. A autora relata que um dos poucos momentos onde ela podia sentir o toque da avó era quando havia visita em casa, ocasião na qual a avó a “exibia” aos convidados com um breve afago nos braços. Aqui talvez o fato de viver numa cidade onde o passado escravocrata se fazia tão presente, foi decisivo para a forma como a relação entre as duas era estabelecida e que, por sua vez, contrastava com o comportamento de sua mãe. Vivian era uma mulher de gestos mais leves e que demonstrava reconhecer a importância do carinho e do amor para o crescimento pessoal de seus filhos. Vivian, afirmava a força do amor a partir de suas ações e exercitava “A ideia de que o amor significa a nossa expansão no sentido de nutrir nosso crescimento espiritual ou o de outra pessoa […]”. (hooks, p. 11)

Se, como ainda nos diz bell hooks, “Numa sociedade onde prevalece a supremacia dos brancos, a vida dos negros é permeada por questões políticas que explicam a interiorização do racismo e de um sentimento de inferioridade.” (hooks, p. 1) a presença e a demonstração do amor são fundamentais no processo de ressignificação das feridas do racismo e de sua cura. Maya considera mesmo que a postura incentivadora de sua mãe e as demonstrações de afeto fizeram com que ela adquirisse autoconfiança e que fortalecessem tanto a sua autoestima com relação a aparência física, quanto com relação ao desenvolvimento e reconhecimento de suas outras habilidades físicas e intelectuais.

Assim, a história da relação entre Maya e Vivian se faz entremeada pelo (re) conhecimento do amor e o seu impacto na trajetória de crescimento de ambas, demonstrando para nós que “[…] Quando conhecemos o amor, quando amamos, é possível enxergar o passado com outros olhos; é possível transformar o presente e sonhar o futuro. Esse é o poder do amor. O amor cura.” (hooks, p. 12). Ao rever sua relação com a mãe, Maya nos revela a força e potência do amor na transformação ativa das suas subjetividades e no processo de cura e libertação da dor. 

Mariana Paim é poeta, professora, pesquisadora, militante feminista junto ao Coletivo de Empoderamento de Mulheres – FSA, co-mediadora do Leia Mulheres e co-produtora do Ciclo de Oficinas em Escrita Criativa em Feira de Santana. Publicou o livro artesanal serei_as: ou ensaio de um mergulho no âncora (2019), está trabalhando na produção de seu segundo livro, Ausência, e escreve ocasionalmente em https://medium.com/@marianapaim.

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