Autoras da casa: Joyce Antunes

Por: Leia Mulheres | Em: 29 / março / 2021

Em março de 2021 o Leia Mulheres completa seis anos. Ao longo desse tempo, conhecemos o trabalho de muitas mediadoras do projeto, que também são talentosas escritoras.

Como uma forma de comemorar o nosso aniversário e para homenagear essas mulheres que se dedicam ao Leia Mulheres, decidimos divulgar o trabalho das mediadoras enquanto escritoras. Leia Mulheres, inclusive as que leem outras mulheres. :)

Eu fui nadar 

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Eu fui nadar. Prendi o ar.
Faz quatro anos que estou nessa, segurando a respiração.
Às vezes solto, às vezes distraio, mas que perigo!
Não entendi muito bem por quê pulei nesse mar.
Pra ser sincera, desde que uma água viva me queimou quando eu era criança, 
nunca fui muito fã de oceanos de água salgada.
Em meio a braçadas fortes e técnicas de flutuação
Pessoas secas de fora gritam: Ei! Nada rápido! Isso é uma competição!
Meus pais estão ali me vendo nadar, mas, como eu disse,
Eu não entendi muito bem por quê pulei nesse mar
Algumas pessoas que nadavam próximo a mim me ajudaram
Algumas, nem tanto, mas mesmo assim, foi melhor do que nadar esse imenso mar sozinha
Pessoas que nadavam comigo me lembravam das flores do continente
E de que não é só de passos que se resume a existência
Alguém disse que eu podia voltar 
Eu não entendi muito bem por quê pulei nesse mar
Não sei se eu sei nadar, se em algum momento aprendi 
Ou se em algum momento vou sair disso tudo. Me secar. 
Pegar na mão de alguém. Andar no novo continente.
Não ter mais o fôlego contido. Respirar diferente.

Fernanda

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Fernanda era uma moça bela. Era bela principalmente porque não tinha obrigação nenhuma com a beleza, por isso sempre era agraciada com algum elogio como ” você é a veterinária mais bonita que eu conheço”, mas parece que ser veterinária e bonita não era suficiente para Fernanda e ela resolveu tirar o  substantivo Veterinária do adjetivo comumente atribuído para sua pessoa.
Foi aí que Fernanda quis compor o grupo das bonitas, substantivamente bonitas. Só “bonitas” mesmo, sem veterinárias, médica, professora, motorista, filha. Ela queria ser bonita antes de qualquer coisa e não ser qualquer coisa antes de bonita. E entre as que são “só bonitas” Fernanda não é ninguém. 

A minha irmã 

terça-feira, 13 de agosto de 2019

A minha irmã me mandou uma mensagem para dizer que FINALMENTE DESCOBRIU ALGO QUE GOSTA.  Essa não é uma mensagem qualquer, nem uma descoberta qualquer, muito menos comunicada por qualquer pessoa. Precisei dar atenção. 

Tenho notado que eu e minha irmã temos uma tendência por nos apaixonarmos de maneira tóxica pelos nossos projetos. Talvez paixão seja isso mesmo, permitir que nosso encantamento nos leve até o mais distante e longínquo lugar nenhum. Precisaria examinar esse postulado. 

Existe uma ideia que paira sobre o inconsciente coletivo de que tudo aquilo que se faz por amor se faz melhor. As pessoas conceituam os sentimentos com pouco rigor e isso quase sempre provoca uma generalização perigosa. 

A qualidade dos ditados populares, e das ideias prontas, é a capacidade que têm de se adaptarem a uma realidade de acordo com a vontade de quem as emprega, independente se a realidade permite ou não o cabimento desse ditado para solucionar alguma coisa prática. Mas as ideias prontas são sempre um consolo fácil. 

Faz dois anos que comecei a ter contato apropriado com conceitos como “vontade” (afetivo volitivo). Nesse tempo de estudo percebi que a vontade não é uma pulsão que emana de forma pura de dentro de nós,  e por isso é preciso atenção para entender o papel das forças externas na formação dos nossos desejos (“internos”). Tudo bem ser desatento a isso também, nenhuma punição específica está prevista para quem vive displicentemente em relação ao seu auto conhecimento, nem nenhum triunfo está previsto para quem procura se entender. Mas existe uma verdade. 

A história constrói verdades e as mulheres e homens constroem a história, não exatamente da forma como desejam, não pelas suas próprias vontades, mas sim se utilizando de um pesado legado do passado, que vezes ostentamos com diplomas, vezes como direitos conquistados e vezes como ignorância estúpida e primitiva de devoção ade mitos.  Toda escolha é uma aposta no futuro que desejamos viver. Se hoje escolhemos viver uma paixão, a verdade é que o futuro será o legado da vivência desse desejo, mas não exatamente pelas nossas próprias vontades.

Joyce Antunes. Mediadora do Leia Mulheres Botucatu. Formada em ciências sociais e interessada em estudos relacionados a temática do feminismo.

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