Autoras da casa: Cecília Tavares

Por: Leia Mulheres | Em: 19 / março / 2021

Em março de 2021 o Leia Mulheres completa seis anos. Ao longo desse tempo, conhecemos o trabalho de muitas mediadoras do projeto, que também são talentosas escritoras.

Como uma forma de comemorar o nosso aniversário e para homenagear essas mulheres que se dedicam ao Leia Mulheres, decidimos divulgar o trabalho das mediadoras enquanto escritoras. Leia Mulheres, inclusive as que leem outras mulheres. :)

Nosso “I”

No dia que a gente
olhar pra tudo que a gente é
com olhos de deslumbre,
nosso bem e mal,
todos os caudilhos, santos, coronéis
e os nossos livros, sonhos e cordéis,
todas as esquinas, campos e bordéis,
e os documentos, artes e papéis,
todos os vinténs e todos os mil-réis
e todas as estradas sob os nossos pés
de retirantes
e não tiver vergonha de botar um “i”
dentro de pés,
a gente vai ser grande,
eu sei
que a gente vai cantar
todas as juremas e igarapés
e todas as lagoas e os jacarés
e todas as serras com os seus sopés,
os carinhos todos e os cafunés,
e todas as cidades, prédios e cafés
e todas as estradas sob os nossos pés
de retirantes.

Saudade, medo, coragem

Um buraco no peito
preenchido com fumaça.
O poema que eu nunca mais li.
Um rosto que mudou
porque o tempo passa.
O arrependimento pelo que eu nunca fiz.
A casa que demoliram
para construir uma farmácia.
Tudo que imaginei e nunca vivi.
O medo que eu tinha da vida,
o medo que eu tinha da praça.

É, eu sinto falta do meu medo.
A coragem que encontrei me apavora;
devora
e me namora quando o medo volta
e me abocanha,
medonha
me põe em risco,
mas a vida é isso,
mas a vida é risco:
nenhum plano é seguro e
quem não arrisca não precisa morrer
pra estar morto
mas o medo protege
e eu tenho saudade
da vida-morte sem risco,
sem plano, sem vida
e eu temo a coragem
e por isso mesmo ela cresce
e floresce
em mim.

Ela gosta do desafio que sou,
a coragem.

Caicontemporânea

Esqueçam o Caicó arcaico:
Caicó muda,
Caicó moderniza-se,
Caicresce a cada tijolo assentado
na periferia.
Caicontemporânea.
Os pais vão à
rezadeira,
enquanto os filhos sonham
com a próxima festa.
Caicó caótica
descrita
numa escrita na
parede-jerimum
da parada de ônibus:
Caicaos.

Cecília Tavares é uma potiguar natalense-caicoense apaixonada por arte e literatura. É mediadora do Leia Mulheres Caicó desde 2020 e estudante de Direito. Vive na tentativa de não perder a capacidade do deslumbre com as pequenas maravilhas e da indignação com as injustiças desse mundo.

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