Se deus me chamar não vou

Por: Milaynne Barros | Em: 11 / dezembro / 2020

“[…] Eles pensam um pouco, e comentam que, de fato, não sabem, ninguém sabe. A gente nunca sabe, Maria Carmem. –Tá vendo, no fim das contas estamos todos no banho-maria.”

Se deus me chamar não vou (2019, Editora Nós) de Mariana Salomão Carrara surgiu a partir de um exercício para estimular a criatividade na escrita: escrever como se fosse uma criança. Assim, a atividade que deveria se resumir a alguns parágrafos acabou trazendo à vida uma personagem cativante e inesquecível, a Maria Carmem Rosário, uma garota de 11 anos que quer ser escritora.

Em entrevista para o canal LiteraTamy, Mariana apresentou o romance nas seguintes palavras: “É uma história narrada por uma criança, escrita por uma criança sobre tudo que ela tá sentindo naquele ano específico que eu delineei com 11 anos que pra mim é uma idade especialmente confusa e melancólica[…]. É um livro bastante sobre essa sensação de estar presa na sua realidade”.

A definição da escritora me acertou em cheio e me motivou a escrever um pouco sobre o livro e minha experiência como leitora, principalmente por causa desses tempos de quarentena. Sendo assim, essa resenha é impulsionada pelo mesmo raciocínio apresentado pela protagonista Maria Carmem ao falar sobre sua “carreira” de escritora: “Eu não tenho ainda um papel de escritora, mas achei que este ano está sendo um ano que merece estar num livro, e, como o ano é meu, pode muito bem estar num livro meu”.

Realmente em muitos momentos da narrativa Maria Carmem está só e essa solidão funciona muito bem para mostrar e exaltar a riqueza filosófica da personagem e da linguagem infantil tão bem dominada por Mariana Carrara. Em nenhum momento da narrativa a construção da protagonista mirim soa artificial e isso diz muito do empenho e do trabalho de pesquisa da escritora que recorreu aos próprios escritos infantis para compor sua personagem.

Maria Carmem é uma hipérbole ambulante, sente demais, pensa demais, sofre demais nesse ano relatado em seu registro autobiográfico. Com certeza é uma personagem dona de uma intensidade divertida, minuciosa, atravessada por melancolia e certo pessimismo pueril.

Mariana Carrara entrega, em vários momentos do texto, passagens que, ao mesmo tempo, fazem a leitora rir e se emocionar com os relatos de Maria Carmem, como quando a menina descreve e apresenta o sentimento “pavonha”: “Existe um sentimento que eu chamo pavonha. Pavonha é a mistura de pavor com vergonha. Pavonha é o que a gente sente na escola quando percebe que eles estão olhando e dizendo alguma coisa entre eles, e depois rindo. Primeiro vem um pavor de que talvez alguém machuque você, ou jogue alguma coisa nojenta, mas também vem a vergonha e por isso você não pode olhar pros lados pra conferir se alguém está vindo na sua direção, e quanto mais eles olham mais parece que sua camiseta está encolhendo e você vai ficando cada vez mais evidente e espaçosa e ridícula.”

Se deus me chamar não vou é um livro que te faz companhia e em tempos de recolhimento e distanciamento é um antídoto para enfrentar o tédio. A presença da Maria Carmem extrapola as páginas do livro e pode chegar às conversas com amigos, às redes sociais, na sala de aula (pelas disciplinas de filosofia e língua português, por exemplo) e pode protagonizar também  encontros iniciais de clubes de leitura.

A beleza dessa experiência de leitura foi contradizer a ideia do próprio livro (e ressaltada pela escritora) de que Se deus me chamar não vou é sobre solidão. Ficou bastante evidente nessa leitura, que o romance também é sobre passar por uma fase, ano, idade difícil e ter que esperar a maturidade vir não só pelo esforço das reflexões e das atitudes, mas pela própria passagem do tempo.

E 2020, com uma pandemia e considerando o atual cenário político brasileiro parece ser um ano que vai exigir de todas nós sabedoria na espera, como escreve Maria Carmem: “[…] Ela me disse que na minha idade as pessoas estão em banho-maria, e que eu tinha que ter paciência. Eu achei que fosse uma brincadeira com meu nome, banho-maria-carmem, mas depois entendi que estou mais ou menos numa travessa de vidro cozinhando muito lentamente em cima da água pra eu não queimar, e uma hora eu vou virar alguma coisa.” Fica o questionamento, quem iremos virar depois que esse período banho-maria da história passar?

Milaynne Barros

Milaynne Barros, piauiense, trabalha na Biblioteca Municipal Casa das Letras e é mediadora do Leia Mulheres Piripiri desde 2019.

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