Sabendo que és minha

Por: Pilar Bu | Em: 9 / dezembro / 2020

Conheci Sabendo que és minha muito antes do seu lançamento. Era novembro de 2019, eu estava bem perdida quando conheci a Fabrina em uma residência artística em Boiçucanga. É curioso porque foi a primeira pessoa que me acolheu de muitas formas. Começamos a conversar e descobri que compartilhávamos muitas fendas, fraturas e funduras. E foi entre a cachoeira e a praia que trocamos sobre os nossos lutos, as nossas perdas e eu conheci pela primeira vez a lula vampiro do inferno, pra depois confirmar que ela existia nas zonas mais abissais da minha saudade. Enquanto eu talhava na madeira todas as minhas dores e pintava o rosto da minha nova amiga de vermelho rebu encarnado eu descobriria que é possível alguém saber tanto sobre você que essa pessoa seria capaz de escrever um livro inteirinho sobre as suas dores sem nem ao menos se dar conta. Meu pai morreu. Esse é um fato e eu tinha certeza de que a partir dali eu tinha entrado em um misterioso, doloroso e irreversível clube amargo de saudades, de filhas que perderam o pai. O que eu não tinha muita ideia, na época, é que esse clube era imenso, quase como uma sociedade secreta partilhada de músicas nunca tocadas, frases nunca ditas e abraços que ficaram pelo caminho. E também que esse clube tinha um duplo, um clã de mulheres que perderam as mães e estavam, igualmente, tateando os espaços para redescobrir como se recompor. Saber quem se é a partir de uma perda tão grande é uma das tarefas mais difíceis. São legiões de mulheres e lágrimas procurando redescobrir seu lugar no mundo.

Meu pai morreu e eu ainda espero que seja ele toda vez que a campainha toca, o interfone chama, ou o celular vibra. Curioso, meu pai quase nunca me visitou. Não por falta de amor, mas por falta de dinheiro. Entretanto, essa não é uma resenha sobre o meu pai, mas sobre o livro da Fabrina. E o que isso tem a ver? Acontece que eu entendi que é preciso muita sensibilidade para materializar a morte, para corporificar a experiência dilacerante de uma perda que sempre será um divisor de águas caudalosas e profundas. E além disso, é preciso coragem. Três anos depois da perda do meu pai eu ainda não sei dizer com as palavras certas tudo o que tenho vivido desde então. A Fabrina sim, ela sabe. E o faz de uma maneira quase poética. Sabendo que és minha está me ajudando a curar um monte de coisas que eu nem entendia, que eu não conseguia corporificar e materializar. E é preciso ser generoso para se deixar partilhar a dor com os outros. E a Fabrina é. Simplesmente é, como diz na sua biografia que aparece na orelha da obra.

Sarcástica, irônica e precisa, Fabrina Martinez nos convida a um mergulho profundo nas zonas abissais de nós mesmos, a um olhar para dentro que é também um olhar para o lado, para o outro com acolhimento, a fim de exercitar a escuta atenta. Difícil dizer, mas eu me senti abraçada, compreendida, representada por tudo que está em Sabendo que és minha: a raiva, o medo, o cansaço de ter que ouvir conselhos sobre a morte, o cansaço de ter que dar conta de tudo, o desamparo, os questionamentos, a vontade de trocar de lugar com quem morreu, a parte que falta, o desespero que fica. Perder o pai e perder a mãe é estar sozinho, completamente despido e precisar ressignificar tudo para seguir em frente.

Abraçar a ausência de controle e o abismo, se deixar ir na falta e na perda não são tarefas fáceis. Eu quase posso ouvir a Fabrina me dizer, aqui, do meu lado, tudo isso e me conduzir. Eu quase posso mergulhar de novo nas águas turvas de Boiçucanga e ser levada pelas trilhas que compartilhamos dentro da mata. O silêncio, a escuta, as pausas e o afago aparecem ao longo do livro na hora certa para acalentar, emocionar e deixar também a gente digerir toda a intensidade que o livro evoca. Cada linha escrita, alinhavada com uma tessitura espessa, de sangue viscoso e lágrimas, nos abre as portas do luto, nos tira da superfície dos sentimentos e trazem as potências evocadas pelas quatro partes da novela quase como em ondas: parto, divã, silêncio, possessão.

As personagens, sem nome, grafadas em maiúscula, evidenciam uma constelação de mulheres que se aproximam do leitor de tal forma que Minha mãe, Minha Analista, Minha Filha podem ser qualquer um de nós, tamanha é a identificação. Sabendo que és minha é um livro sobre o luto, sobre a perda, sobre a falta, mas também é um livro sobre a vida, sobre a memória, sobre os rastros, sobre os restos, sobre a possibilidade de dançar no inferno, de se erguer dos escombros e se recompor.

Sem romantizar a maternidade, revelando os descompassos, as frustrações e estereótipos inatingíveis que se desdobram da relação entre mãe e filha que se descortina aos nossos olhos, percebemos as fendas, as fraturas e as funduras que não são minimizadas pela ausência. Fabrina Martinez nos encontra nos limites do desconforto e do desamparo de maneira que a prosa transita e flerta com uma escrita poética e ácida e nos faz refletir sobre os nossos próprios processos de elaboração do passado e do presente. Prefiro acreditar que o título do livro não fala da mãe em si, mas da ideia de que Sabendo que és minha é, na verdade, uma alusão à gestação e parto dessa nova mulher, após passar por uma experiência traumática de perda, de descoberta, se refazendo mesmo quando não dá.

É um livro que alcança de muitas formas o leitor, mesmo que ele não tenha passado pela mesma experiência que nossa autora-personagem, e o faz perceber a importância das coisas mais simples da vida, aparentemente pequenas, triviais, mas que se revelam imensas, grandiosas, e que vão se agigantando aos poucos tamanha a importância. Eu acabei me percebendo em um jogo que me remete à Clarice Lispector, ao esconder o livro pela casa, só para ter o prazer de encontrá-lo e depois abraçá-lo e me sentir mais uma acolhida.

Sim, é clandestina mesmo essa coisa da felicidade, da leitura que desestabiliza para te devolver ao mundo diferente, transformada, estranhamente contemplada no espelho como outra pessoa. Por isso, te desafio a mergulhar nas águas profundas e abissais e se deixar conduzir por Fabrina Martinez. Garanto que você não será a mesma, não será o mesmo, depois desse processo. E deve ser mesmo esse o barado de sei deixar fluir.

Pilar Bu

Pilar Bu é vampira, leoa e mãe felina de 4 gatos. Poeta, já foi publicada em diversas revistas eletrônicas e coletâneas, seu primeiro livro, Ultraviolenta, foi lançado em 2017 pela Kotter Editorial. É uma das fundadoras ex-integrante do coletivo minaescriba, também fundou e mediou o Leia Mulheres Goiânia, além de ser uma das organizadoras do festival literário [Eu sou poeta]. Doutoranda em Teoria e História Literárias pela Unicamp, Mestra em Estudos Literários pela UFG, é obcecada por literatura como modo de vida e experiência. Atua como professora de escrita criativa, literatura e crítica literária, trabalha também com revisão de textos, redação e produção de conteúdo. Escrever é sua grande paixão.

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