A Origem do Mundo: uma história cultural da vagina ou a vulva vs o patriarcado

Por: Andreia Zemp | Em: 13 / outubro / 2020

A Graphic Novel A Origem do Mundo foi o título escolhido para o encontro de março de 2020 de nosso clube de leitura, que deu origem ao Leia Mulheres Zurique – Aargau. Publicada originalmente na Suécia em 2014, a obra já foi traduzida para mais de 10 línguas e chegou ao Brasil em 2018. A edição brasileira foi publicada pela Quadrinhos na Cia., selo de HQs da Companhia das Letras, com tradução de Kristin Lie Garrubo. Na verdade, o título original da obra em sueco Kunskapens frukt (Ordfront/Galago 2014) pode ser traduzido como “Fruto do conhecimento” e foi mantido na edição em inglês Fruits of Knowledge. Tenho em mãos a edição alemã Der Ursprung der Welt ( tradução semelhante ao título em português), publicada em 2017 pela editora Avant-Verlag (Berlin).

A leitura de A Origem do Mundo foi para mim uma experiência muito marcante. Através deste livro adquiri uma consciência mais profunda sobre as causas do desconforto de tantas mulheres com a própria sexualidade e com uma parte tão íntima de seus corpos: a vulva. Conheci também histórias inimagináveis de brutalização de corpos de mulheres, promovidas por homens – com o consentimento da sociedade – em diferentes momentos da história da humanidade. O livro nos ajuda a compreender as distorções promovidas pela pela sociedade patriarcal e sua cultura machista e misógina, que ridiculariza e invisibiliza a genitália feminina exatamente por receio de que o empoderamento feminino e a relação saudável e libertária da mulher com seu próprio corpo desestabilize a hierarquia imposta.

A autora desta ousada HQ é a quadrinista Liv Strömquist, nascida em Lund, na região de Österlen, ao sul da Suécia. Strömquist, atualmente com 42 anos e formada em ciências políticas, desenha e escreve regularmente para diferentes revistas e jornais suecos, além de apresentar um podcast sobre menstruação. Desde a infância Strömquist se dedica a desenhar quadrinhos. Sua primeira HQ Cem por cento de gordura foi publicada na Suécia em 2005. Suas criações se ocupam de questões sociais, focando especialmente na crítica ácida ao sistema patriarcal, e demonstram um grande leque de referências, desde textos antigos da história da humanidade até as culturas contemporâneas. Declaradamente feminista, Strömquist consegue passar por temas delicados e espinhosos com uma linguagem bem humorada, informal e ao mesmo tempo sarcástica, numa dose que não compromete a seriedade do texto e a gravidade dos fatos e das reflexões que a autora nos apresenta, muito pelo contrário: sua intencional ironia procura nos mostrar o quão ridícula e absurda é a compulsão do patriarcado por colonizar o corpo da mulher, dissecando, analisando, versando sobre o órgão sexual feminino. 

Liv Strömquist também é autora de outras HQs igualmente instigantes de cunho feminista, as quais também tive a oportunidade de ler em alemão: I’m every woman (Berlin: Avant-Verlag, 2019); Prins Charles Känsla [1] (Stockholm: Ordfront/Galago 2010), publicado em alemão com o titulo Der Ursprung der Liebe [2] (Berlin: Avant-Verlag, 2020), Ich fühl’s nicht [3] (Berlin: Avant-Verlag, 2020).  Infelizmente estes três livros ainda não foram traduzidos para o português. Nestas obras Strömquist discute a respeito de temas como a construção cultural da ideia de amor romântico, a violência física e psíquica sofrida por mulheres através de relações abusivas com seus parceiros, as dificuldades da mulher em conquistar seu amor próprio em diferentes culturas e sociedades, entre tantos outros. Muitos episódios relatados pela autora fazem referência a reconhecidas personalidades da ciência, da arte e da política, bem como a celebridades dos séculos 20 e 21: de Albert Einstein, Munch, Pablo Picasso, Yoko Ono e John Lennon, princesa Diana e príncipe Charles, Elvis e Priscila Presley a Britney Spears, Whitney Houston e Leonardo di Caprio, apenas para citar alguns exemplos.

O livro é dividido em cinco capítulos, nos quais a autora narra diversas pequenas histórias, discute conceitos filosóficos e apresenta mitos e tradições ancestrais que se opõem ao patriarcado, demonstrando que realizou uma aprofundada pesquisa sobre a percepção cultural da vulva, temática até hoje pouco abordada na literatura de uma forma geral.

A primeira parte é dedicada à apresentação de uma lista de personalidades masculinas que, segundo a autora, „ se interessaram um pouco demais por aquilo que se costuma chamar de ‘genitália feminina’“. Neste trecho Strömquist relata, por exemplo, a história da mulher escravizada [4] sul-africana Saartjie Baartman, comprada e trazida para Londres no início do século 19 pelo médico Alexander Dunlop, onde passou a ser exibida nua, em público, mediante cobrança de ingressos, por conta de suas grandes nádegas e dos lábios genitais considerados maiores que o “normal”. O que aconteceu após a morte da sul-africana é ainda mais absurdo e brutal – vale a leitura – e revela, para além das atrocidades da escravidão, um caso de violência contra a mulher e de racismo científico, como a própria autora ressalta.

No segundo capítulo Strömquist faz um apanhado das representações a respeito da sexualidade feminina ao longo da história da humanidade, fazendo referência às deturpadas descrições científicas do órgão sexual feminino em diferentes contextos culturais e sociais.  Ao mesmo tempo, Strömquist nos revela a existência de tradições ancestrais em diferentes culturas, tempos e sociedades, nas quais era comum o culto à vulva e à fertilidade da mulher. 

Os tabus acerca do orgasmo e da masturbação femininos são o tema da terceira HQ do livro. Strömquist também percorre diversas teorias científicas sexistas que associam a vagina a uma versão imperfeita do pênis, e aborda as confusões que envolvem a descrição da vulva e da vagina, bem como o formato e o tamanho reais do clítoris [5]. Fica claro para nós, leitoras, o quanto este desconhecimento a respeito de nossos próprios corpos  – intencionalmente promovido por cientistas e intelectuais homens – contribui, até os dias atuais, para a insegurança de tantas mulheres, culminando em fenômeno insensatos, como a crescente demanda atual por cirurgias íntimas de “correção” do tamanho e do formato da vulva, até mesmo entre adolescentes.

Quem ganha voz na quarta história em quadrinhos do livro é a personagem bíblica associada à origem da civilização humana. Quais seriam as inquietações de Eva nos dias atuais, no que diz respeito à experiência de ser mulher em um mundo sexista, bem como à percepção do próprio corpo e da própria sexualidade? As simulações criadas por Liv Strömquist são interessantíssimos e, sendo mulher, é impossível não se identificar com algum deles.

No capítulo final Strömquist nos leva a uma reflexão sobre as distorções da percepção cultural da menstruação a partir do advento das religiões patriarcais, enquanto que em diversas religiões politeístas mais antigas a capacidade de menstruar era idealizada como um poder divino e sobrenatural. Strömquist aponta o constrangimento da maioria das mulheres durante o período menstrual, a partir do momento em que o sangue passa a ser associado à sujeira e às impurezas. A autora satiriza inclusive a forma como a indústria dos absorventes descartáveis procura associar o uso dos mesmos à sensação de limpeza, frescor e bem estar, quando na verdade estes geram uma imensa quantidade resíduos não biodegradáveis de longa duração. Neste sentido, considero que seria muito interessante e oportuna uma atualização deste debate sobre sustentabilidade pontuado pela autora, incluindo o recente movimento de mulheres pelo uso dos coletores menstruais de silicone e dos absorventes de pano, que surgiram nos últimos anos.

A Origem do Mundo é, portanto, uma obra riquíssima que se propõe a estabelecer um diálogo bem humorado, cativante e ousado com as leitoras e com os leitores, e a promover o empoderamento feminino através deste diálogo. Entretanto, cabe ressaltar que Strömquist tem uma abordagem até certo ponto eurocêntrica e quase que restrita a relatos sobre o universo das mulheres brancas heterossexuais. A quadrinista faz referência breve a algumas personagens negras, mas não se aprofunda na relação entre racismo e sexismo nas sociedades patriarcais – que oprime especialmente a mulher negra – , e em aspectos como a mutilação genital feminina, até hoje culturalmente aceita em alguns países africanos. No que concerne à diversidade de gênero e à invisibilidade das mulheres transgênero, Strömquist até chega a pontuar alguns aspectos, mas não se concentra em detalhar como o tema da apropriação cultural da vulva afeta o público LGBTQI+. O aprofundamento destas duas abordagens seria muito enriquecedor, tornando o debate aberto por Strömquist mais inclusivo e abrangente.

Cabe também evidenciar que a HQ foi publicada no Brasil em um cenário sócio-político problemático e extremamente sexista e misógino. O que vemos atualmente no Brasil é uma tentativa sistemática de perpetuar a hegemonia do patriarcado e de aniquilar os direitos da mulher sobre seu próprio corpo, sobre seu próprio desejo [6]. Por este ângulo, podemos entender a obra Liv Strömquist como uma contribuição relevante, a qual pode servir como inspiração para as autoras e para as leitoras brasileiras, no sentido lutarmos para transformar a realidade de nosso país.

Eu, particularmente, saio desta leitura mais empoderada e capaz de discutir sobre os tabus que envolvem o universo feminino. Sinto-me também mais fortalecida, como mulher e como mãe de uma menina e de um menino, para me engajar nesta luta por um mundo mais igual e mais justo para as mulheres de minha geração e da geração dos meus filhos.

[1] Traduçao: “Os sentimentos do Principe Charles”.
[2] Traduçao: “A origem do amor”
[3] Traduçao: “Eu não sinto isto”
[4] Utilizo aqui um termo proposto pela autora Grada Kilomba em seu livro “Memórias da plantação: episódios de racismo cotidiano” (Rio de Janeiro: Editora Cobogó, 2019). Kilomba que se opõe ao uso da palavra «escrava/o», que indica uma condição permanente, tendo em vista que as pessoas africanas foram forçadas à escravidão.
[5] A quadrinista chega inclusive a ressaltar a invisibilidade do termo “clítoris” ao longo das primeiras cinco décadas do século 20! A respeito dos tabus que envolvem a vulva, vale também a leitura de “A Celebration of Vulva Diversity” de Hilde Atalanta  (Ed. This is us Books; 2019). A autora também a idealizadora do projeto The Vulva Gallery, no qual procura, através de desenhos baseados em imagens de vulvas reais de mulheres ao redor do mundo, e dos relatos destas mulheres, evidenciar a diversidade de gênero e dos corpos, e ao mesmo tempo promover a auto-estima o empoderamento femininos.
[6] As tentativas do atual governo no sentido de tolher o direito das crianças à educação sexual nas escolas, apenas para citar um exemplo, prejudica o processo de autoconhecimento das meninas, bem como a construção e o exercício da empatia entre crianças e adolescentes com diferentes gêneros e opções sexuais, e dificulta desta maneira a formação de cidadãos e cidadãs que rompam com o ciclo da cultura do estupro

Andreia Zemp

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