Vintém de Cobre: meias confissões de Aninha

Por: Thaisa Silva Martins | Em: 2 / setembro / 2020

Falar de Cora Coralina é falar de afeto, de amor, e de doçura, no literal sentido da palavra. Cora foi uma grande doceira, exerceu esta atividade por quase toda a vida, vindo a publicar o seu primeiro livro com 75 anos de idade.

Vintém de Cobre é uma coleção de poemas da autora recheados de elementos narrativos da sua vida, marcados, especialmente, pela Cidade de Goiás – GO, onde nasceu, bem como pela Fazenda Paraíso, local onde passou momentos marcantes da sua infância.

O “Vintém”, expresso no título da obra, carrega o simbolismo do que é precioso, foi perdido e depois achado por Cora. Logo, Vintém de Cobre explicita o retorno da autora às suas raízes em Goiás, após morar por quarenta e cinco anos no interior de São Paulo. Esta volta marca o encontro com o “Vintém”, com a preciosidade de “Aninha”, sendo este o seu apelido de menina. Afinal, Cora Coralina é Anna Lins dos Guimarães Peixoto Brêtas (1889-1985) que, cansada de encontrar tantas “Anas” durante a sua vida, cria o pseudônimo Cora Coralina, desde a adolescência, quando publicou o seu primeiro escrito.

Vintém de Cobre é composto por poemas narrativos. Muitos destes trabalham bastante o linguajar herdado da Bisavó da autora, pessoa muito próxima a ela. Destaca, inclusive, a importância da escrita e, ao mesmo tempo, a valorização da língua popular, advinda do aspecto cultural, como no poema Voltei: “[…] a língua é móvel. Os gramáticos a querem estática, solene, rígida. Só o povo a faz renovada e corrente sem por isso escrever mal” (p.136). Cora Coralina também exalta o poder da educação, traçando nos poemas homenagens aos livros, aos professores e à universidade.

A autora promove reflexões sobre os dilemas da vida, envolvendo a família e as rejeições da infância, como no poema Menina Mal Amada:

[…] Eu era medrosa e nervosa. Chorona, feia, de nenhum agrado, menina abobada, rejeitada. Ao nascer frustrei as esperanças de minha mãe. Ela tinha já duas filhas, do primeiro e do segundo casamento com meu Pai. Decorreu sua gestação com a doença irreversível de meu Pai desenganado pelos médicos. Era justo seu desejo de um filho homem e essa contradição da minha presença se fez sentir agravada com minha figura molenga, fontinelas abertas em todo crânio […] (p.114).

Cora também retrata neste livro o simbolismo da terra, da relação humana com a natureza, levando-nos a entender como parte desse processo. Ela afirma “[…] A gleba está dentro de mim. Eu sou a terra. […] (p.110) […] Tudo o que compõe o lixo veio da terra e, depois de aproveitado, usado, espremido e sugado, volta para a terra” (p.231).

É possível observar também nos poemas de Cora a exaltação ao trabalho e a devoção ao fazer bem feito, que podem ser identificadas, no poema intitulado Nunca Estive cansada: “[…] o trabalhador sente-se forte e seu trabalho se faz leve e ele se esperta e até mesmo canta, abrindo o eito, estimula os companheiros […]” (p.50).

Em linhas gerais, Vintém de Cobre traz esperança para a vida, algo, inclusive, que pode servir de alento nestes tempos tão difíceis de isolamento social físico, advindos de uma pandemia que assola todo o planeta. Este alento possibilitou com que o debate deste livro, realizado pelo nosso clube Leia Mulheres Araçuaí-MG, se desse de uma forma muito afetuosa, embora realizado por meio virtual. Cora Coralina nos fez e nos faz acreditar em dias melhores, como está expresso no poema Eu Creio:

Creio nos valores humanos e sou a mulher terra. […] Creio na força do trabalho como elos e trança do progresso. Acredito numa energia imanente que virá um dia ligar a família humana numa corrente de fraternidade universal. Creio na salvação dos abandonados e na regeneração dos encarcerados, pela exaltação e dignidade do trabalho […] (p.236).

É por acreditar, como nos propõe Cora, em dias melhores, que entendemos como a literatura é importante para suspensão do cotidiano, sobretudo, em contextos tão desafiadores como o atual. E Cora, em especial, foi fundamental para nos auxiliar, com leveza e lirismo, ao proporcionar um encontro íntimo com a poesia, o que nos ajudou a aliviar as durezas da vida cotidiana.

Para complementar o estudo dessa obra, bem como da vida de Cora Coralina, sugerimos o documentário “Cora Coralina – todas as vidas” (Documentário de Renato Barbieri), o qual, inclusive, contribuiu para as discussões do nosso encontro no clube e para a presente resenha.

Entendemos que ler Cora é sinônimo de amorosidade, leia Cora também. A sua escrita oxigena o nosso cérebro e nos dá força para enfrentar a vida.

Thaisa Silva Martins

Thaisa Silva Martins, Mediadora do Leia Mulheres Araçuaí-MG. Assistente Social e doutoranda em Serviço Social. Ama ler mulheres, meditações, cores e chocolate.

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