Ponciá Vicêncio

Por: Ana Amelia Coelho Pace | Em: 31 / agosto / 2020

Ponciá Vicêncio é o primeiro romance de Conceição Evaristo e é também minha primeira leitura dessa escritora. Nascida em Belo Horizonte, Conceição Evaristo tem trilhado uma carreira engajada em nome do movimento negro, na docência e pesquisa na área de literatura. Suas publicações englobam os gêneros da poesia, ensaios, contos e romances.

Tenho em mãos a terceira edição de Ponciá Vicêncio. Nela, o romance vem acompanhado de um prefácio da própria autora e de um posfácio de Maria José Somerlate Barbosa, da University of Iowa, Estados Unidos.

A leitura do prefácio já consegue nos situar em dois aspectos. Primeiro, temos um relato a respeito das “escrevivências”, para usar um termo que Conceição Evaristo cunhou. A personagem Ponciá Vicêncio, da maneira tocante e sensível como foi criada e como foi lida, acaba por se misturar com a vida da escritora, a tal ponto que muitas vezes leitores confundem o nome da escritora e da personagem, chamando-a de Ponciá Evaristo. Ela diz: “quando trocam o meu nome pelo dela, orgulhosamente respondo: presente!”

Na segunda parte do prefácio, a escritora relata a história de publicação de Ponciá Vicêncio. As duas primeiras edições foram em sua maior parte autofinanciadas, num grande esforço pessoal para colocar em circulação. Esforço esse que, como Conceição Evaristo bem assinala, se relaciona de maneira inegável com a questão racial.

Se sentimos que a luta das mulheres para terem seus textos publicados e lidos é difícil, devemos ter em mente que essa luta se torna mais árdua para as autoras negras. Como a própria Conceição Evaristo afirma no prefácio, “não só a condição de gênero vai interferir nas oportunidades de publicação e na invisibilidade da autoria dessas mulheres, mas também a condição étnica e social”.

Por essas razões, nosso engajamento enquanto moderadoras dos clubes do Leia Mulheres inclui pensar nos tortuosos caminhos de publicação e distribuição de obras de autoras negras e indígenas – dando voz a esses textos, contribuindo para que eles circulem mais.

A narrativa, de maneira muito poética, inicia bem centrada nos pensamentos, imagens e experiências da personagem-título. Aos poucos, o ponto de vista narrativo vai se abrindo. É assim que, no decorrer da história personagens como o irmão e a mãe de Ponciá vão começando a ser nomeados: descobrimos que se chamam Luandi e Maria. Junto com esse movimento de aproximação a essas duas figuras, vamos acompanhando os caminhos que eles percorrem. São narrados episódios de racismo, violência doméstica, êxodo rural, desigualdade social, mas também de ajuda mútua entre negros, amor e companheirismo. Entre encontros e desencontros, vai ficando mais evidente o quanto os elos familiares e ancestrais, assim como a ligação feminina com a natureza, são elementos fundamentais para os três personagens centrais.

As andanças de Ponciá, Luandi e Maria fazem parte da incessante procura dos afro-brasileiros, descendentes diretos de ex-escravizados, por seu lugar, por sua identidade. Percorremos, como leitoras, a tentativa em se reconstruir os laços ancestrais em meio à violência do racismo estrutural brasileiro.

Dentro do romance, as imagens e atividades da infância de Ponciá, como o arco-íris e a feitura dos objetos de barro, são trilhas possíveis para o reencontro pelo qual o corpo e a alma de Ponciá tanto necessitam.

A construção gráfica do romance é peculiar. Sem divisões de partes ou capítulos, o texto é feito de parágrafos invertidos, às vezes mais curtos, mas não muito mais longos que uma página. A meu ver, esses parágrafos são como retalhos costurados para criar uma manta, veste que Ponciá, Maria e Luandi anseiam em encontrar para se sentirem inteiros.

Como branca, aprendo muito frente a narrativas de autoria negra, praticando o contínuo exercício de me confrontar com os privilégios da minha condição. Descubro uma história que a branquitude tentou silenciar. Frente a essa voz da resistência negra, dou minhas reverências. Acolho, repensando criticamente meu papel como feminista e antirracista.

No mais, levo da leitura uma prosa cheia de poesia, maleável como o barro, trabalhada pelas mãos de uma artesã. Estou ansiosa pela minha próxima leitura da Conceição Evaristo.

Ana Amelia Coelho Pace

Natural de São Paulo-SP. Mestre em Literatura Francesa pela USP, moro desde 2012 na Suíça, onde sou uma das moderadoras do Leia Mulheres Zurique-Aargau. Trabalho na área de ensino, mediação cultural e integração de imigrantes.

Veja outros posts de Ana Amelia Coelho Pace