Contos que a vida conta

Por: Thaisa Silva Martins | Em: 28 / agosto / 2020

Para comentar esta obra, é necessário destacar que a autora Ana Maria Colares Otoni é nossa conterrânea, ou seja, nasceu na cidade do nosso clube do Leia Mulheres, Araçuaí-MG. Mais precisamente na Fazenda Diamantino, em 1939 e já é falecida.  Dona Nana, como é mais conhecida, dedicou sua vida à carreira do magistério. E embora só tenha este livro publicado, conforme informações colhidas com os seus familiares no encontro em que debatemos a sua obra, teve a vida atravessada pela marca da escrita, sendo uma mulher de inspiração para o povo de Araçuaí, sobretudo, para nós, mulheres.

Araçuaí é uma cidade do vale do Jequitinhonha, interior do Estado de Minas Gerais, região nordeste. Tem quase 37 mil habitantes (IBGE, 2020), marcada pela agricultura familiar e com grande potencial cultural, sobretudo, com um rico artesanato, com a presença de corais e grupos de teatro, além de um Museu encantador chamado Museu de Araçuaí – um presente de Frei Xico e Lira Marques, onde ocorrem os encontros presenciais do Leia Mulheres.

Contos que a vida conta traz, de forma divertida, diversos acontecimentos sobre os aspectos de educação da época vivenciada pela autora, destacando os dialetos e as aventuras de uma cidade pacata do interior, traz, também, aspectos culturais da religiosidade e da crença popular. As pessoas mais velhas, que leram o livro e participaram do encontro, afirmaram se lembrar de algumas personagens e fatos relatados na obra.

Nos contos, é recorrente uma conclusão marcada pela reflexão da autora. Por ser uma professora, expõe o contexto do modelo de educação tradicional da sua época, atravessado pela palmatória e outras estratégias de controle, como o ato das professoras lerem as notas dos alunos em voz alta, o que intimidava a classe.

Neste livro, observamos, também, como a mulher era alvo de comentários maldosos nas regiões interioranas, carregando, ao mesmo tempo, a culpa por questões machistas estruturantes deste sistema em que vivemos, algo que atravessa a nossa sociedade e nos leva a entender a presença do patriarcado, por meio da dominação dos homens sob as mulheres.

A autora expõe questões marcantes sobre a educação moral das mulheres, levando-nos a refletir sobre a divisão sexual do trabalho, o acesso restrito destas ao mercado de trabalho, auxiliando-nos a refletir acerca da responsabilidade histórica que é colocada para nós, mulheres, com o cuidado, a meiguice, e, consequentemente, com os afazeres do âmbito doméstico e privado.

Este livro permitiu a discussão sobre o papel da mulher numa perspectiva bem regional e familiar, calcada, infelizmente, no “poder do mando”, no qual somos educadas somente à obedecer, algo que marcou a vida da autora e que apareceu nos relatos de seus familiares, no nosso encontro. Ana Maria Colares Otoni se constitui como uma inspiração para nós, por ter desafiado o que lhe foi imposto para estudar e escrever.

O encontro do Leia Mulheres Araçuaí-MG, que debatemos esta obra, ocorreu em dezembro de 2019, e foi bem peculiar, por ter trazido a perspectiva da região em que moramos e por contar com vários familiares e amigas da autora, os quais trouxeram informações sobre a sua biografia, como o seu dom para pinturas artísticas. Os seus quadros, inclusive, foram expostos durante a nossa discussão. A partir deste encontro, foi possível identificar o legado que esta escritora deixou para os seus filhos e a alegria do seu esposo, viúvo, em lembrar da autora, distribuindo exemplares do livro debatido para todas as pessoas participantes.

Isso reforçou a relevância do projeto nacional Leia Mulheres ao possibilitar a valorização, também, das autoras locais, oferecendo-nos a oportunidade de ressaltar aquelas que não tiveram a oportunidade de publicar, recorrentemente, e, por conseguinte, obter renome nacional.

Thaisa Silva Martins

Thaisa Silva Martins, Mediadora do Leia Mulheres Araçuaí-MG. Assistente Social e doutoranda em Serviço Social. Ama ler mulheres, meditações, cores e chocolate.

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