Eu amo Dick

Por: Julia Ferry | Em: 21 / julho / 2020

Eu amo Dick é um livro escrito por Chris Kraus cuja classificação literária é um desafio, mistura de ensaio, “romance abstrato”, autobiografia, carta e escrita acadêmica. A narradora, Chris, que está beirando os quarenta anos, é casada com um escritor acadêmico, ambos inseridos na cena estadunidense artí­stica dos anos 80. Em um jantar entre conhecidos do casal, ocorre uma troca de olhares entre Chris e um artista chamado Dick, ao que ela descreveu como uma experiência de uma “foda conceitual”.

A partir disso, Chris passa a escrever cartas eróticas e apaixonadas para Dick, gesto que ganha uma dimensão enorme na história. Nesse movimento, ela endereça a ele questionamentos que passam por questões da sua vida privada à críticas ao patriarcalismo presente na cena artística do momento. Kraus marca discursivamente uma posição feminista influenciada pelo feminismo da década de 70, que reivindicava a imbricação do pessoal e do político como forma, estética e prática política.

Neste gesto, Chris admite deslocar a sua escrita do campo do confessional, argumentando que seu conteúdo não se restringia à confissões singulares, narcisistas e íntimas (“sua neurose pessoal’’), mas poderiam se tratar do que chamou de uma forma, de dimensão pública, uma “filosofia performada”, que teria algo a refletir sobre as mulheres no campo da cultura, do social e do político:

Por que a vulnerabilidade das mulheres segue sendo aceitável apenas quando é neurotizada e pessoal; quando se alimenta de si mesma? Por que as pessoas insistem em não sacar quando tratamos a vulnerabilidade como filosofia, a uma certa distância?” (p. 212)

No que envolve essa vulnerabilidade que ela se vê inicialmente identificada, muito diz respeito à rejeição amorosa e o desprezo que a narradora recebe por parte de Dick. Chris marca diante disso, uma posição de uma mulher “desobediante e desagradável”, que insiste a anunciar o seu desejo, numa continuidade da escrita das cartas, ainda que receba respostas cortantes ou ignoradas. Há o que se pode chamar de um gesto de coragem, onde ela rompe com um padrão montado dos jogos de flerte/sedução em que se supõe um pacto de cinismo e um ar de mistério e silêncio entre os pretendentes/amantes. No que se pode dizer desse modelo “óbvio” e prontamente codificado, a mulher compõe uma caricatura de opacidade performada, passiva e silenciosa ao que ela implica:

Por que as mulheres devem sempre aparecer limpas? Por que todos acham que as mulheres estão degradando a si mesmas quando expomos as condições da nossa degradação?” (p. 211)

“O que acabou me afastando do feminismo do mundo dos filmes experimentais, além dos grupos de estudos enfadonhos sobre Jacques Lacan, era sua investigação sincera a respeito do dilema da Garota Bonita. Enquanto Garota Feia, aquilo não me interessava muito.” (p. 184)

É interessante que ela ironiza essa proposta de feminilidade supostamente subversiva e emancipatória presentes nos espaços contra-culturais que circulava, no que o modelo “musa e blasé”, ainda responde à padrões patriarcais e limitantes de experiência. Uma vez que essa proposta de desconstrução da mulher permanece sendo uma imagem tranquilizadora e agradável aos olhos dos homens, não desmobilizam a valer, as posições hegemônicas do discurso patriarcal.

A saída inventada por Chris ao longo da narrativa para esses conflitos que se referem à sua feminilidade e sexualidade, passa pela experiência de uma implicação com a sua própria fala – e eis que esse deslocamento de uma posição limitada a se garantir enquanto uma imagem passiva e demandante, para aquela que reivindica para si o dizer sobre o seu desejo, deixa este homem, Dick… mudo! Esse diálogo e a sua ausência faz pensar que este par “homem e mulher”, nunca complementar, e que opera em uma gramática complexa e contraditória, se movimenta quando um deslocamento da posição feminina pode convocar a masculinidade patriarcal a entrar em questão. Isso atualiza a operação do jogo sexual na história de forma nada clichê.

Se nas primeiras cartas Chris faz um endereçamento histérico para um outro (o interlocutor, Dick), em uma demanda incessante e cansativa por uma resposta de si mesma, colocando-se como uma consequência e escolha comandada por um ato alheio, posteriormente se desloca para a ocupação de agente implicada no próprio desejo, angústia e fantasia.

Não acho que seja à toa o sucesso contemporâneo que o livro veio a ganhar, uma vez que reacende uma questão ainda presente, entre os debates feministas, que negociam e complexificam as questões da sexualidade e da feminilidade. Longe de ser um livro que resolve essa tensão infinita, mas que apresenta uma saída criativa inventada por Chris Kraus, que não abandona sua posição feminista, mas também não nega as contradições do seu desejo – ao contrário, as evidencia – e talvez por isso, o livro se torna tão potente.

Julia Ferry

Julia Ferry é psicóloga e mestranda em Psicologia Social pela Universidade de São Paulo. Atualmente pesquisa sobre Psicanálise em diálogo com produções artísticas contemporâneas.

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