Fun Home: uma tragicomédia em família

Por: Fabrina Martinez | Em: 24 / junho / 2020

Alison Bechdel é muito conhecida pelo teste Bechdel de filmes e isso, de certa forma, é muito injusto. A escritora é autora de duas HQs que derrubam qualquer crítica possível ao formato, à autoficção ou narrativas memorialísticas. Além disso, suas obras nos permitem gastar palavras como incríveis, essenciais e necessárias. Não sei como anda o debate sobre esse autoficção ou memórias mas, o livro lançado em 2006, já jogava terra em falas que depreciam esses gêneros. Fun Home é um tratado sobre memória, identidade e pertencimento. Caso isso não te convença, ele foi eleito o livro do ano pela revista Time. Acredita em mim, leia.

Já tinha lido o livro antes de ser relançado pela Todavia em 2019. A primeira edição brasileira é de 2007, da Conrad. E, como raramente acontece, a segunda vez foi bem melhor que a primeira. Nessa HQ, ela nos apresenta sua família e, em especial, Bruce Allen Bechdel, seu pai. Basicamente, ela nos conta como é ser uma criança que cresce numa casa funerária, com seus irmãos, sua mãe e um pai gay fascinado por literatura e decoração. Entretanto, suas memórias são atravessadas por clássicos da literatura que funcionam como base de entendimento da narrativa e das identidades das pessoas. Em especial, de Bruce.

Eventos cômicos, trágicos e surreais marcam a narrativa e é interessante percebermos como Bechedel nos apresenta a complexidade de seu pai que, em outros momentos, seria apresentado apenas como professor de inglês e diretor de uma casa funerária. Mas quando a autora resolve contar aos pais que é lésbica, a família expõe a orientação sexual de Bruce e coloca na mesa todas as conversas que nunca foram ditas em voz alta mas que, de alguma forma, permeiam a história da família. Fun Home é uma leitura importante para entendermos os assuntos silenciados são justamente aqueles permeiam a identidade de qualquer pessoa.

Fabrina Martinez

Fabrina Martinez é jornalista, escritora, poeta, mestre em literatura pela UFMS e mediadora do Leia Mulheres Marília. Em 2020, lançará sua primeira novela pela Pólen. Segue cumprindo o isolamento social com a filha adolescente e uma cã idosa.

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