Flor de Gume

Por: Michelle Henriques | Em: 19 / junho / 2020

Flor de Gume é o livro de estreia de Monique Malcher, escritora nascida no Pará que nos presenteia com contos maravilhosos. Publicada pela Pólen Livros (Selo Ferina), o livro traz prefácio de Paloma Franca Amorim que diz “um olhar primeiro, inciático, para as primeiras dores, as primeiras dores de si, as primeiras dores do mundo”.

É exatamente isso, uma obra sobre dores, mas também de nostalgia e lembranças. Dividido em três partes: Os nomes escritos nas árvores, os umbigos enterrados no chão; Quando os lábios roxos gritam em caixas de leis herméticas e O reflorestar do corpo, o abandonar das pragas, o livro traz muito do Pará, das lembranças de infância, dos costumes, das relações familiares. Em contos como Suas sandálias me cabem? e Por entre as pedras as águas choram a autora trata da relação abusiva com o pai, de sentimentos de raiva e da impotência da criança diante das violências.

Já no conto As palavras por debaixo da porta temos a fala: “As mulheres sabem que no fundo estão só sobrevivendo”. Monique mostra questões de ancestralidade de uma forma muito direta, ela não versa sobre as mil maravilhas de ser uma mulher, mas sim das dores que carregamos de nossas mães e avós, aprendizados duros que arrastamos por nossos dias e nos ensinam a aguentar firme, e a movimentar a ira nas horas necessárias.

Flor de Gume inteiro é permeado por passagens como “Sou muito boa em contar mentiras, mas não em matar fantasmas” e “Não é exclusividade das casas serem assombradas, mulheres também são”. Gosto muito da forma como Monique coloca as mulheres como fortes, não indefesas, que precisam dar um jeito de sobreviver, apesar de serem apagadas por seus maridos, pais e até filhos.

Os cemitérios estão presentes em vários contos. Vistos como algo mórbido pela sociedade, aqui são pontos de paz e equilíbrio. Pôsteres de bandas góticas cobrem as paredes, enquanto traumas são revividos no corpo.

A terceira parte do livro talvez seja minha favorita, com muitas menções ao sangue, ao pus, ao suor, ao que há de mais humano. Há relações com homens na juventude, a descoberta do amor por mulheres, a raiva que nos move, que nos tira do conformismo.

O conto “Beladona” fecha o livro com a passagem “Só as mulheres corcundas de carregarem tanta dor podem voltar, e voltam, todos os dias”. Flor de Gume é um livro incrível de estreia, com uma força que há muito eu não via. Há lembranças doces, mesmo que envolvas em trauma, ainda arrancam sorrisos. Ser mulher é isso, suportar mais do que aguentamos, e mesmo assim seguir adiante. E esse livro ilustra bem isso.

Michelle Henriques

Michelle Henriques é louca dos gatos e trabalha com livros. Ama café, escreve sobre cinema no Cine Varda e fala de terror no Necronomiconversa e no The Witching Hour.

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