Ao pó

Por: Michelle Henriques | Em: 6 / junho / 2020

Conheci a Morgana Kretzmann no começo desse ano num clube de leitura. Notei que ela ficou mais de canto, bem discreta. Até que falou algumas coisas e fiquei encantada com suas palavras. Uma pessoa na sala citou que eu era do Leia Mulheres, a Morgana me olhou e abriu um sorrisão. Sempre falo que a melhor coisa que o Leia me trouxe foi a proximidade de mulheres incríveis, leitoras e escritoras, a Morgana foi uma delas.

Conversamos um pouco, mas foi o suficiente para percebermos várias questões em comum e marcarmos mil cervejas. Ela me disse que lançaria um livro em breve pela Editora Patuá, e eu logo fiquei animada para ler sua obra de estreia. Por motivos de pandemia, as cervejas ainda não aconteceram e só consegui pegar o livro há poucos dias.

Comecei a leitura de Ao pó ontem e hoje de manhã já tinha terminado. O livro se divide em cinco partes: Prólogo, Recomeço, Suspensão, Reparação e Epílogo. Já aviso que a história aborda assuntos pesados como estupro, abuso e violência contra a mulher. Apesar disso, Morgana tem uma escrita envolvente, que nos impede de pararmos a leitura para respirar.

Ao pó conta a história de Sofia, uma jovem que mora no interior do Rio Grande do Sul, com sua mãe e sua irmã mais nova, Aline. Ambas são abusadas por um tio, mas mantém segredo. Quando termina o ensino médio, Sofia decide se mudar para o Rio de Janeiro para recomeçar sua vida. A irmã mais nova implora que a leve junto, mas ela diz que não pode e as duas param de se falar.

Já no Rio Sofia se torna uma atriz de teatro de relativo sucesso, até que se envolve num relacionamento com Carlos, um famoso diretor de teatro que não a trata com respeito. Entre indas e vindas, eles acabam ficando juntos, o que não traz felicidade alguma para Sofia. Em meio a essa situação triste, ela é estuprada por idiotas de uma banda e filmam a violência.

Carlos a abandona, amigos a deixam de lado. Sofia entra em depressão, começa a beber e fumar, lembranças da infância se misturam com essa violência vivida e ela afunda. Humberto, seu amigo mais próximo, a ajuda muito e aos poucos ela começa a planejar uma vingança. Não no sentido Kill Bill da coisa, mas sim um enfrentamento, um acerto de contas, com todos aqueles que a machucaram de alguma forma.

Ao pó não é um livro fácil de ler, ainda mais para nós mulheres que podemos nos identificar com várias das situações que a personagem passa, desde as mais leves, como se anular ao lado de um companheiro, como as de extrema violência, que infelizmente são mais comuns do que podemos imaginar. Mas acho que a história nele contada deve ser passada adiante, ainda mais escrita pelas mãos de uma mulher.

Morgana Kretzmann nos presenteou com um ótimo livro de estreia, mesmo tratando de assuntos difíceis sua escrita é muito fluída e o enredo muito bem estruturado. Sua escrita é bastante direta e dura, do jeito que certas histórias devem ser contadas.

Michelle Henriques

Michelle Henriques é louca dos gatos e trabalha com livros. Ama café, escreve sobre cinema no Cine Varda e fala de terror no Necronomiconversa e no The Witching Hour.

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