A vida mentirosa dos adultos

Por: Michelle Henriques | Em: 7 / junho / 2020

Demorei um tempinho para ser picada pelo bichinho da Ferrante Fever. Comecei a ler A Amiga Genial a caminho da Flip de 2015, pois em agosto daquele ano iríamos discuti-lo no Leia Mulheres de São Paulo. Claro que eu gostei, mas não via a genialidade (desculpem o trocadilho!) que todo mundo estava falando. Dias depois da leitura me sentei para escrever a resenha e me dei conta de que eu lembrava de absolutamente tudo do livro, ele estava inteiro na minha cabeça. Aí sim eu entendi a que Elena Ferrante veio.

Desde então devoro seus livros. Só não li ainda Frantumaglia, pois quero ter algo inédito dela para ler em algum momento. Quando eu soube que a Intrínseca iria lançar seu novo livro, A vida mentirosa dos adultos (trad. de Marcello Lino), eu não poderia ficar mais feliz. Finalmente algo novo dela para eu descobrir.

Não ia dar para esperar até setembro, então assinei o clube da editora e recebi meu exemplar numa tarde de sábado de quarentena. Na quinta-feira seguinte, no começo da noite, eu já tinha terminado as 429 páginas. Como sempre acontece com os livros da Ferrante, acabei e fiquei olhando para o teto por mais tempo do que deveria.

Neste livro Ferrante nos traz a história de Giovanna, uma pré-adolescente que mora com os pais, intelectuais, e aparentemente leva o que poderíamos chamar de vida perfeita. Seus pais são muito amigos de um casal, pais de Angela e Ida, melhores amigas da jovem. Tudo corre bem, até que o pai, num momento de raiva, diz que Giovanna está cada vez mais parecida com Vittoria.

Vittoria é simplesmente uma das personagens mais instigantes de Ferrante. Irmã do pai de Giovanna, ela é a familiar sem educação, a empregada doméstica sem estudo, aquela que foi amante de um policial. Tem a fama de estragar a felicidade de todos, e nunca mais teve contato com o irmão. Para a jovem, ser comparada com a tia, que tinha tal má fama, foi uma angústia sem fim.

Para entender melhor o que estava acontecendo, ela pede para encontrar Vittoria, quer saber mais. A tia é uma figura que a atrai e lhe causa repulsa. Giovanna descobre que ela mantém contato muito próximo com a esposa de seu falecido amante. Juntas parecem lamentar a morte dele, cuidam dos filhos dele e Vittoria exerce uma figura muito intensa de autoridade para aquela família.

Ela é temida e respeitada por todos, e Giovanna se torna cada vez mais próxima. Começa a frequentar a igreja com a tia, faz amizade com seus “sobrinhos”, que nada mais são do que filhos de seu amante, ao mesmo tempo que se afasta dos pais e começa a perceber que sua vida não é perfeita como imaginava.

Em meio a tudo isso, Giovanna vai amadurecendo, se tornando adolescente, começam suas primeiras descobertas sexuais, ela deixa de ver os pais como heróis. Ferrante narra muito bem aquele momento em que todos nós descobrimos que nem sempre nossos pais estiveram certos.

Como todo livro da Ferrante, este aqui é muito difícil de largar. Eu o li numa semana particularmente difícil e era muito bom enfiar o rosto no meu exemplar e esquecer de tudo ao meu redor. Me transportei para Nápoles dos anos 90, para o embate de família, para as grosserias, para a rebeldia adolescente.

Eu poderia escrever páginas e mais páginas detalhando a perfeição da escrita de Ferrante. Creio que atualmente ela seja a melhor contadora de histórias da literatura mundial. O mais banal bafão familiar se torna uma pérola através da mente de Elena Ferrante. Seja quem ela for, eu só gostaria de dar um abraço apertado e agradecer por cada linha que ela escreveu.

Michelle Henriques

Michelle Henriques é louca dos gatos e trabalha com livros. Ama café, escreve sobre cinema no Cine Varda e fala de terror no Necronomiconversa e no The Witching Hour.

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