Entrevista: Fernanda Rossin

Por: Leia Mulheres | Em: 27 / maio / 2020

Conversamos com a escritora Fernanda Rossin, que acaba de lançar seu primeiro livro, As Fiandeiras, pela Editora Patuá. Confira abaixo:

1) Fernanda, você acaba de lançar seu livro de estreia, As Fiandeiras, pela Patuá. Pode nos contar um pouco sobre o processo de escrita dele?

Uma vez escutei uma frase nas linhas de “Você passa a vida toda escrevendo seu primeiro livro, e tem seis meses para escrever o próximo”. Ainda que eu não pretenda nem tenha nada me pressionando para escrever um segundo livro nos próximos meses, essa frase ilustra bem o processo de criação d'”As Fiandeiras”. O livro esteve em construção nos últimos doze anos, praticamente desde quando comecei a escrever poesia. No livro, há um poema que escrevi aos dezesseis anos, outros que surgiram em 2014 ou 2015. A maior parte, porém, foi escrita a partir de 2017. Escrevia os poemas sem pensar em nenhum objetivo específico para eles, e tinha muito receio de mostrar para outras pessoas o que eu escrevia, porque minha poesia sempre tratou de temas muito pessoais; até que, em algum momento de 2018, quando a terapia estava me ajudando a ficar mais próxima dos meus sentimentos, decidi que queria publicar algo e percebi que eu tinha um bom número de poemas já prontos. Resolvi tentar estruturá-los, e foi assim que encontrei o eixo temático do que se tornaria As Fiandeiras. 
Com base nesta organização, consegui trabalhar nos poemas que ainda não existiam e agregá-los aos antigos. 

2) Como você chegou a uniformidade dos poemas? Eles conversam uns com os outros? E o título, o que significa?

No começo, tinha somente os poemas soltos. Quando passei a vê-los como um livro em potencial, selecionei os que tinham mais força e que eu gostava mais. Essa primeira seleção foi o esqueleto do livro, e relendo os poemas percebi algumas questões em comum. Decidi também que queria dividir o livro em sessões, como são divididos alguns dos meus favoritos. 
Por gostar muito da estética e história do número três, queria que fosse este o número de divisões. E a partir daí me veio a ideia de conectar as sessões do livro com as Moiras, que se tornaram o eixo temático. As Moiras são três irmãs da mitologia grega responsáveis pelo fio da vida – a primeira dá a linha, a segunda a estica e a terceira, corta. Desde que as conheci, elas me fascinam tanto que fiz inclusive uma tatuagem em alusão a elas. 
As sessões do livro se associam às irmãs: “A louca”, “A solitária” e “A bruxa”, e dentro de cada sessão os poemas giram em torno destes temas e se conversam dessa forma. Ah, e em cada parte há um poema diretamente relacionado ao papel da irmã ao fiar; me diverti muito ao criar esses poemas pensando nesse encaixe. 
E o título, é claro, vem também da mesma mitologia, apesar de surpreendentemente eu ter demorado a chegar nele. Por muito tempo o título foi outro, até perceber que aquele nome anterior pertencia à uma obra diferente, que está em criação.   

3) Quando você começou a escrever? Como chegou até o livro?

Mesmo quando ainda não sabia escrever, criava histórias em pequenos livrinhos para a minha mãe. Sou filha única e tive uma infância solitária, então a leitura foi uma parceira desde cedo na minha vida. Juntando o gosto natural por criar, com o gosto desenvolvido por livros, comecei a escrever desde cedo. Redação era uma das minhas matérias preferidas na escola, e descobri fanfics no começo da minha adolescência. Escrevi muito com base nos personagens alheios. 
Com quinze ou dezesseis anos, comecei a criar poemas que canalizavam meu sofrimento, sendo uma escrita muito mais pessoal do que as fanfics, apesar delas também terem parte de mim. Mantenho também diários desde os treze anos, apesar de muitas vezes querer me afastar deles porque é mais difícil ter um registro literal da nossa vida. Essa é minha relação com a escrita.
Chegar no livro foi uma construção de muitos anos. Pensava que nunca seria capaz de publicar, ainda mais algo tão pessoal quanto poesias. Acho que chegue no livro quando já não tinha mais tanto medo do mundo e de mim, quando comecei a me sentir mais forte para compartilhar coisas que eu sentia e vivia.  

4) Como é seu processo de escrita? Prefere algum período do dia? Escreve sempre?

Por muito tempo, eu acreditava que a escrita dependia de um jorrar de inspiração que vinha de forma muito flutuante, então era raro escrever com consistência. Por causa disso, era raro também que eu conseguisse finalizar o que começava, e isso passou a me incomodar. Em 2017, escrevi um “manifesto pessoal de escrita”, no qual dizia para mim mesma que queria escrever de forma mais estruturada e finalizar coisas. Conhecer a rotina disciplinada de autores como Stephen King me fizeram perceber que talvez essa fosse uma mudança necessária para que eu conseguisse escrever mais (e, principalmente, finalizar mais). 
Quando decidir juntar meus poemas em um livro, fui tão disciplinada quanto pude. Colocava metas de escrever 3 ou 5 poemas em um dia, e escrevia mesmo que ficassem grotescamente ruins. O processo de aprender a escrever coisas ruins foi muito importante para mim, e ficava repetindo que se eu não produzisse poemas fracos, nenhum deles teria força. 
Costumava fazer isso depois do trabalho, à noite, mas escrever poemas tem a vantagem de depender de menos estrutura do que outros tipos de escrita; teve muita coisa que surgiu quando estava fora de casa, e conseguia rascunhar no celular. Acho que nenhuma surgiu direto no computador. No geral, escrevo poemas em um caderno específico, e mesmo quando o poema nasce em outro meio, passo a limpo nesse caderno (hoje tenho três ou quatro deles cheios).
Escrevo sempre, ainda que nem sempre ficção ou poemas. É meu modo preferido de reflexão. 

5) Em tempos de pandemia, como será o lançamento do livro? 

Ainda não sei detalhes, porém a expectativa é que eu consiga interagir com os leitores por meio de cartas (caso não consiga fazer dedicatórias direto no livro) e outros meios virtuais. Quero tornar a experiência interessante para ambos os lados, para mim e para quem lê, mesmo que não consigamos fazer isso pelas formas tradicionais. 

6) Você tem projetos futuros? Está trabalhando em algo?

Estou sim! Quando comecei a construir “As Fiandeiras”, tinha ainda um bom número de poemas que gosto muito e não se encaixavam no livro. A partir destes poemas mais antigos e outros novos, estou escrevendo um segundo livro de poesias. Ainda não está pronto e não sei como será a publicação, mas tenho intenção de lançá-lo no próximo ano ou em 2022.
Além desse segundo livro de poemas, começarei a trabalhar no segundo semestre em uma ideia antiga para um livro de contos, que espero ter pronto em 2021. 

7) E para fechar, quais são suas influências na escrita?

A poeta americana Mary Oliver é uma das minhas maiores influências na escrita e na vida. Ela me dá forças de uma forma única, é minha amiga e meu refúgio.  
Hilda Hilst, Wisława Szymborska e Fernando Pessoa também me influenciam muito, e dialogo com os três autores ao longo d'”As Fiandeiras”. Audre Lorde, com seu texto “A poesia não é um luxo”, me fez ter uma visão completamente diferente da poesia, pela qual até então tinha sentimentos ambivalentes, porque eu amava e também achava, do alto da minha arrogância, que era uma arte menor. 
Haruki Murakami e Patti Smith são outras duas influências que extrapolam a escrita, e ainda que não estejam tão claras no livro, me ajudaram a entender o que arte significa para mim e qual o papel da escrita na minha vida. 

Obrigada pela entrevista!

Leia Mulheres

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