Assim na terra como embaixo da terra

Por: Michelle Henriques | Em: 6 / abril / 2020

Estamos no meio da quarentena e eu simplesmente não conseguia me concentrar em nenhuma leitura. Tudo parecia arrastado e difícil de entender. Ano passado fiquei viciada na literatura de Ana Paula Maia, li quase todos os livros dela, só faltava Assim na terra como embaixo da terra. Ele me pareceu uma opção perfeita para esses tempos de isolamento.

Li o livro em uma manhã de domingo, sem pausa. Isso já é clássico das obras de Maia, a escrita dela flui e você não sente o tempo passar. Em seus livros temos personagens recorrentes, como o Edgar Wilson, que em alguns é protagonista e m outros aparece rapidamente. Não é o caso deste. A autora sempre aborda as vidas de homens marginalizados, como lixeiros, trabalhadores de matadouros e crematórios.

Em Assim na terra como embaixo da terra ela nos traz uma colônia penal, comandada por Melquíades, um carcereiro que caça e mata os presos em nome da satisfação pessoal. A colônia fica num terreno com histórico de assassinatos e tortura de escravos, e reza a lenda ser mal assombrado. Quem é mandado para lá nunca mais é visto.

A colônia será desativada, restam poucos prisioneiros e eles esperam a visita de um oficial que irá determinar para onde serão enviados. Com Melquíades enlouquecido e a demora do oficial, eles começam a planejar uma fuga perigosa, mas que parece ser melhor do que ficar lá.

A escrita de Maia é dura, direta e o mais objetiva possível. Ela fala de assuntos que preferimos esquecer, ou para os quais fechamos os olhos. Tive oportunidade de assistir a um debate com ela ano passado, e fiquei encantada com toda a sua fala. Cheguei a perguntar o porquê de não falar sobre mulheres, e ela disse que preferia falar dos homens brutos. Sua literatura é difícil de classificar. Ela beira o naturalismo, com toque de terror, de suspense, foca na realidade que sabemos que existe, mas não falamos sobre.

Com este livro, Maia venceu o Prêmio São Paulo em 2017. Nascida no Rio de Janeiro, publicou seu primeiro romance, O habitante das falhas subterrâneas, em 2003. Desde então, publicou mais seis livros, sendo o mais recente Enterre seus mortos, de 2018, que também foi vencedor do Prêmio São Paulo.

Michelle Henriques

Michelle Henriques é louca dos gatos e trabalha com livros. Ama café, escreve sobre cinema no Cine Varda e fala de terror no Necronomiconversa e no The Witching Hour.

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