Úrsula

Por: Patricia Lorena | Em: 16 / março / 2020

Há muito tempo Úrsula figurava em minha lista de desejos. Me apetecia o fato de ser um romance abolicionista, de uma autora negra oitocentista. Eu mantinha essas poucas informações e muitas curiosidades. Até que finalmente, através do Leia Mulheres me encontrei com a obra.

Li a edição da Penguin & Companhia das Letras que traz uma introdução escrita por Maria Helena Pereira Toledo Machado, na qual são abordadas a obra e o seu contexto, bem como a invisibilidade em torno da romancista negra no Brasil. O livro ainda apresenta uma cronologia de fatos ocorridos no Maranhão, Brasil Colonial e África, que se entrecruzam e se relacionam a obra e a existência de Maria Firmina dos Reis. Apesar da simplicidade da capa, sem orelhas, das páginas em papel jornal e a letra miúda, esses aportes textuais dão um requinte maior ao livro.

A página de abertura traz informações da autora, a maranhense Maria Firmina Dos Reis, mulher, negra e pobre. Nascida nos anos vinte do século XIX, em São Luís, mudando-se ainda criança para a cidade de Guimarães, para viver com a mãe e a irmã em companhia de uma tia de mais posses, cidade onde cresceu e morreu. Maria Firmina era filha ilegítima de pai negro. Tornou-se professora e ousou abrir uma sala de aula mista, motivo de escândalo na época. Em 1859 escreveu esse romance, tornando-se uma das primeiras romancistas brasileiras.

Agora trago as minhas impressões da obra, dizendo como esta me afetou.
A obra enreda o romance dos jovens Úrsula e Tancredo, o arroubo de um amor juvenil, puro, quase devocional. Foi interessante entrar em contato com a escrita rebuscada de nossa língua. A autora descreve minuciosamente os ambientes e contextos em que se desnovela a trama, fato que me prende por demais a leitura, pois sinestésica, chego a sentir os cheiros descritos assim como vejo as cores que pintam cada cena.

Porém, o que me roubou atenção na escrita de Maria Firmina foi a denúncia ao patriarcado e à escravidão. A forma como ela narra as violências em torno do casamento, denunciando os silêncios impostos à esposa enquanto descreve os pais de seu amado Tancredo. O pai, um senhor arrogante e autoritário, a mãe, resignada ao papel de esposa obediente e devotada as coisas do lar.

Ainda que essa relação fosse comum à época, Maria Firmina a descreve evidenciando o sofrimento dessa esposa, que sucumbe a tristeza sendo conduzida a morte. Tancredo, afastado dos cuidados da mãe ainda menino para estudar Direito na capital, retorna quando formado, encontrando em seu núcleo familiar a jovem Adelaide, afilhada de sua mãe e dada em seus cuidados depois de órfã. Tancredo se apaixona à primeira vista, mas o pai impede o casamento com a moça alegando a sua humildade, ou no caso, pobreza.

Para que o jovem esqueça a moça o pai lhe envia a um exílio, arrumando um trabalho em uma comarca no interior. Volta a casa de seus pais, em virtude da morte da mãe e encontra Adelaide já esposa de seu velho pai. O fato marca para sempre a separação desse a família.

Durante a viagem a comarca onde prestaria serviços, o rapaz sofre um acidente. Cai do cavalo que o transportara, o que o leva a convalescer. Nesse momento, é encontrado por um escravo de nome Túlio, que o leva à casa mais próxima para que seja socorrido. Lá moram Úrsula e sua mãe, e o rapaz fica ali até que sua saúde se restabeleça.

Essa convivência o aproxima de Úrsula, que ele toma por esposa para que finalmente possa esquecer Adelaide. Nesse mesmo contexto compra a liberdade do escravo Túlio como forma de agradecer o socorro prestado. O escravo, que poderia experimentar liberdade, torna-se fiel a Tancredo, o tomando por novo dono. Esse fato curioso nos conduz a questões hoje levantadas por estudiosos da colonialidade do poder onde o colonizado tem seu imaginário invadido pelo colonizador, que o domina e o conduz a subalternação como se tratasse de um processo natural.

O livro é cheio de minucias e detalhamentos, está escrito em 20 capítulos, todos entremeados por esse romance aos quais se enredam novos personagens.

É curioso e bem escrito, e apesar de se apresentar como uma narrativa linear, o leitor precisa estar muito atento, em virtude das ações descritas em detalhes, além do rebuscamento da língua, com expressões já em desuso, o que nos faz recorrer à pesquisa vez por outra.

Tem um desfecho inusitado para quem sempre espera por finais felizes em romance, que não vou revelar, mas que desvela com muita argucia o sistema senhorial, constituído por homens cruéis, que se apossam de sujeitos, como mulheres e escravos a época, objetificando-os. O fim de Úrsula é o da mulher do século XXI, que sofre diuturnamente com violência psicológica, que gera relação abusiva, seja no contexto da família ou no casamento. E poderíamos gritar viva ao pioneirismo de Firmina em evidenciar situações que até hoje são de difícil desvelamento. Mas devemos gritar mesmo é: até quando?

Patricia Lorena

Mulher – menina de 45 anos, mãe – filha, viciada em livros, gatos, café e poesia. Renasce a cada livro e pensa que mora nas esquinas da poesia que lê.

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