Se deus me chamar não vou

Por: Pilar Bu | Em: 7 / fevereiro / 2020

Eu já queria ler Se deus me chamar não vou desde antes do seu lançamento. A escrita de Mari Carrara me pega muito desde que ouvi ela ler seus textos quando fui monitora do incrível Marcelino Freire. Ou seja, sou uma privilegiada, porque tive spoiler. Na minha cabeça, Mari já tinha nascido pronta, prontinha, com um jeito de fazer literatura muito consistente e poderoso. Ver o livro na minha mão, foi como materializar esse desejo antigo de conhecer um pouco mais do que eu já tinha visto de relance e tinha amado.

A literatura tem isso de nos transportar, de nos levar para outros lugares, conhecer mundos e também de nos reconectar com partes de nós que nem sabíamos mais que existiam. Neste romance, encontramos Maria Carmem, uma menina de 11 anos, muito tamanho, e uma solidão dilacerante. Maria Carmem me lembra muito de mim pré-adolescente, ainda que sejamos diferentes em várias coisas. Descobri depois que o mundo está cheio cheinho de Maria Carmem nas minhas amigas, nas minhas irmãs, nas participantes do Leia Mulheres Osasco, nas ruas de São Paulo, nas ruas de Goiânia. Maria Carmem é um retrato de um desamparo, de uma solidão, de uma tristeza que tem muito a ver com todas nós, porque a escrita, de alguma forma, quer dar conta desse processo doloroso e inevitável que é crescer.

Crescer e começar a perceber que o mundo nos desencaixa, nos desloca, nos coloca em lugares e situações que precisamos lidar para que possamos encontrar jeitos de existir. O primeiro amor, os conflitos com os pais, a percepção do mundo a partir de um olhar de uma menina que está se descobrindo, e a recusa de acreditar em um chamamento divino. Mari Carrara é danada, ela nos conta toda essa história de um jeito leve, divertido, muitas vezes até engraçado. Oscilei entre a identificação, o choro livre e um pouco de riso e foi certamente uma das leituras mais deliciosas daquele 2019 arrastado.

Com um dicção que nos faz mesmo acreditar que o livro é escrito por uma menina de 11 anos, a autora nos conduz por temas muito importantes, como o bullying, os padrões comportamentais que nos massacram desde cedo, a afetividade, o desencaixe, e de alguma forma também trata de como o esquecimento, o envelhecer, pode ser muito assustador na medida em que você pode até precisar de peças de reposição, mas não é uma máquina.

É também um livro metalinguístico, metaliterário, afinal, Maria Carmem é escritora, e ela tem planos em relação a isso. Ela arquiteta, ao longo da narrativa, um jeito de se fazer notar como uma romancista, vemos a estruturação de suas ideias, de seu projeto. O livro também é sobre o processo solitário da escrita e nós, leitores, somos cúmplices da narradora, somos seus interlocutores.

Não conhecemos apenas um ano de sua vida, conhecemos muito mais: Maria Carmem nos abre seu diário, sua rotina, suas angústias, para que possamos compartilhar com ela todos os sentimentos. E eu adoro um diário (como leitora, não escritora), adoro a escrita que se debruça nos meandros da casa, das relações, que revela os detalhes do que não é dito, do que temos medo de expressar, daquilo que fica nos cantos, arrastado para debaixo dos tapetes.

Na narrativa fica muito clara a necessidade de diálogo, do dizer, de abrir um canal de encontro com o outro, afinal, muita coisa se acumula, machuca, maltrata, porque não conseguimos expor tudo o que sentimos. Ou também porque não encontramos espaço e escuta. Nossa e como é difícil esse processo! Demanda muita energia, emocional, física, nos exaure. Se deus me chamar não vou é belíssimo, principalmente porque é um livro que nos dá esperança, nos mostra como esses encontros podem ser refeitos, como o que machuca pode ser exposto, tratado, acolhido e que a ferida, muitas vezes, é compartilhada.

Terminei a leitura com o coração aos pulos, sobressaltada, apaixonada e numa felicidade tremenda. Sabia que esse livro precisaria estar no Leia Mulheres Osasco e que essa autora precisa ser lida, exaltada, resenhada e compreendida. Mari Carrara tem uma escrita muito própria, muito intensa, muito viva e na minha opinião ela não faz nada para não ser incrível.

Eu jamais teria a destreza de Mari Carrara para compor algo de tanta potência como é a vida de Maria Carmem, acho que é uma habilidade meio especial, um superpoder que nem o homem-aranha tem. Eu só realmente me entrego ao fato de que a literatura, essa catarse, me faz olhar pra dentro e entender que a cura é um jeito de escrever que transforma. Acho tocante como a narradora nos conduz, nos faz acreditar nessa ligação poderosa de identificação. Amei o livro e estou encantada com a autora. Prepare o coração para essa leitura poderosa, você não vai se arrepender.

Pilar Bu

Pilar Bu é vampira, leoa e mãe felina de 4 gatos. Poeta, já foi publicada em diversas revistas eletrônicas e coletâneas, seu primeiro livro, Ultraviolenta, foi lançado em 2017 pela Kotter Editorial. É uma das fundadoras ex-integrante do coletivo minaescriba, também fundou e mediou o Leia Mulheres Goiânia, além de ser uma das organizadoras do festival literário [Eu sou poeta]. Doutoranda em Teoria e História Literárias pela Unicamp, Mestra em Estudos Literários pela UFG, é obcecada por literatura como modo de vida e experiência. Atua como professora de escrita criativa, literatura e crítica literária, trabalha também com revisão de textos, redação e produção de conteúdo. Escrever é sua grande paixão.

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