Ay Kakyri Tama – Eu moro na cidade

Por: Michelle Henriques | Em: 10 / fevereiro / 2020

O Leia Mulheres tenta sempre em seus encontros discutir o máximo possível de diversidade na literatura escrita por mulheres. Infelizmente, autoras indígenas ainda não são amplamente publicadas pelas editoras, e o acesso à escrita delas às vezes se torna mais difícil. Mas algumas editoras, como a Pólen Livros, nos trazem ótimas autoras indígenas, como Márcia Wayna Kambeba.

A autora é do povo Omágua/Kambeba, no Alto Solimões (AM). Mora hoje em Belém (PA) e é mestra em Geografia pela Universidade Federal do Amazonas. A primeira edição de Ay Kakyri Tama – Eu moro na cidade foi publicada em 2013 pela própria autora, com poesias baseadas na dissertação de mestrado defendido em 2012 sobre seu povo.

A nova edição foi publicada pela Pólen no final de 2018 e possui fotos que a própria autora tirou de comunidades indígenas. Sua poesia evoca a importância da cultura dos povos indígenas, em uma luta descolonizadora, que nos faz pensar sobre o lugar atual dos povos originários sul-americanos. Nos tempos sombrios que a nossa política vive, que os povos indígenas são cada vez mais ameaçados, o trabalho de Márcia se torna ainda mais importante.

Márcia Kambeba percorre todo o Brasil e a América Latina com seu trabalho autoral. Além de escritora, poeta e fotógrafa, ela também é compositora e ativista. Sempre discute e expõe as dificuldades que as comunidades indígenas sofrem no país, e através de seu livro Ay Kakyri Tama, podemos saber mais sobre esta realidade tão diferente do imaginário popular.

No poema que abre o livro e leva o mesmo título da obra, Márcia diz:

Em convívio com a sociedade,
Minha cara de
“índia” não se transformou
Posso ser quem tu és
Sem perder quem sou

Mantenho meu ser indígena
Na minha identidade
Falando da importância do meu povo
Mesmo vivendo na cidade

A autora aborda questões sobre a colonização do homem branco, de como ela foi devastadora para a cultura dos povos originários. Ela também desmistifica preconceitos das pessoas não-indígenas, que acham que esses povos vivem apenas de uma forma. Os povos indígenas são muitos, com costumes e rituais diferentes, e os mesmos devem ser preservados. Márcia, em seu livro, garante que sua cultura seja passada adiante.

Considero este um livro essencial para adultos e crianças, sendo uma ótima obra para ser abordada em sala de aula. Com uma linguagem acessível, rápida e melódica, Márcia mostra a cultura que aos poucos querem apagar.

Michelle Henriques

Michelle Henriques é louca dos gatos e trabalha com livros. Ama café, escreve sobre cinema no Cine Varda e fala de terror no Necronomiconversa.

Veja outros posts de Michelle Henriques