A Falência

Por: Michelle Henriques | Em: 5 / fevereiro / 2020

Acho que a parte mais legal de estar no Leia Mulheres é que eu tenho a oportunidade de conhecer escritoras maravilhosas, principalmente aquelas clássicas brasileiras que eu devia ter conhecido na escola. Maria Firmino dos Reis e Carolina Maria de Jesus são duas delas. Em janeiro, aqui em São Paulo, a gente sempre lê um livro clássico, para esse ano escolhemos A Falência, de Júlia Lopes de Almeida.

Ela nasceu em 1862 no Brasil, filha de ricos imigrantes portuguesas. Viveu algum tempo em Portugal, onde publicou seu primeiro livro de contos, Traços e Iluminuras. Voltou ao Brasil em 1888, casada com o poeta português Filinto de Almeida. Seu nome foi cogitado para estar entre os dos fundadores da Academia Brasileira de Letras (1897), mas devido ao machismo da época, acabaram indicando seu marido.

Aqui uma pequena pausa para dizer que o machismo na Academia continua. Apenas seis mulheres estiveram nela em seus mais de cem anos: Rachel de Queiroz, Dinah de Silveira de Queiroz, Nélida Piñon, Lygia Fagundes Telles, Zélia Gattai e Ana Maria Machado. O nome de Conceição Evaristo ganhou destaque nos últimos tempos, mas não passou de burburinho. É triste pensar que pouco mudou em todos esses anos.

A Falência, romance de 1901, está na lista de leituras obrigatórias do vestibular da Unicamp, e por esse motivo, ganhou algumas novas edições. A que li é da Penguin e Companhia das Letras, e tem um interessante prefácio de Luiz Ruffato. Cheguei a ir no lançamento do mesmo, e a Profa. Constância Lima Duarte estava presente, enriquecendo ainda mais o debate.

A obra se passa em 1891 e nos conta a história de Francisco Teodoro, um rico comerciante de café que se casa com Camila, vinda de uma família pobre. O casal têm filhos e vive uma vida tranquila, enquanto Camila mantém relações com o amante Dr. Gervásio, e Francisco passa a investir em negócios arriscados e perde todo seu dinheiro. Camila e os filhos precisam aprender a viver nessas novas condições.

Eu gosto muito de novelões e histórias descritivas, mas confesso que foi um pouco difícil engatar a leitura de A Falência. De qualquer forma, considero esse livro essencial por diversos motivos. Creio que o mais forte seja o retrato que a autora faz da sociedade machista e hipócrita. Assim como Jane Austen não era escancaradamente feminista em sua obra, Júlia aqui solta algumas frases que nos arrancam sorrisos.

Os senhores romancistas não perdoam às mulheres; fazem-nas responsáveis por tudo – como se não pagássemos caro a felicidade que fruímos! esses livros tenho sempre medo do fim; revolto-me contra os castigos que eles infligem às nossas culpas, e desespero-me por não poder gritar-lhes: hipócritas! hipócritas!“. Essa passagem, logo no início do livro, já nos dá um indício de que Camila não terá o mesmo destino de Anna Karênina ou de Emma Bovary. Nada como uma mulher escrever um livro e criar uma personagem que consegue se manter, sem passar por um castigo moral que os escritores sempre dão a elas.

Michelle Henriques

Michelle Henriques é louca dos gatos e trabalha com livros. Ama café, escreve sobre cinema no Cine Varda e fala de terror no Necronomiconversa.

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