Entrevista: Mariana Travacio

Por: Leia Mulheres | Em: 13 / janeiro / 2020

Conversamos com a escritora argentina Mariana Travacio, autora do livro Cotidiano, lançado em 2019 pela Editora Moinhos. Confira.

Como você começou escrever? Quais eram as suas inspirações?

Acho que comecei a escrever graças ao carteiro. Morávamos em São Paulo; a família longe. Eram tempos sem Internet. E sem telefone. Eu ficava na janela, à hora exata, esperando o carteiro. Eu via ele chegando, de bicicleta, a já descia, correndo, pro térreo. Ele abria a mochila e eu tinha a sensação de que ele esvaziava essa mochila em casa. Deixava tantas cartas. E minha mãe tinha nos treinado nisso de sentar à escrivaninha do quarto, abrir cada envelope, ler cada carta e respondê-la. Acho que essa foi a minha primeira narrativa: essas letras carregadas de beijos, levando e trazendo abraços, naquela mochila. E é como tudo: o hábito ler e escrever fica aí, com você, instalado, e já não vai embora. Esse costume depois tomou a forma do ensaio, do escrito técnico, do artigo: eram tempos de escrita acadêmica, quando trabalhava na universidade, dando aulas de Psicologia Forense. A ficção veio depois: quando quis dizer alguma coisa sobre aquilo que não tinha resposta. A ficção nunca foi uma escolha. Foi uma coisa que chegou sem que eu pudesse me negar. Eu não acredito na inspiração no sentido romântico das Musas, mas acredito, como dizia o Barthes, que há uma inspiração na leitura. Ele gostava dizer que entre leitura e escritura há uma relação nupcial, de procriação. Estou de acordo com ele: ler e escrever são atos que caminham juntos, de mãos dadas. Então, nesse começo da escrita criativa, eu acho que influenciou uma certa devoção pela leitura, uma certa necessidade de dizer e uma impossibilidade de dizer como não fosse através das palavras: eu desenho e pinto horrivelmente, meu ouvido é ruim para a música, nunca cultivei a dança e a linguagem sempre me fascinou. Eu acho que é isso. O fascínio: aquela alucinação que te chama, irrevogável, tão inútil e tão essencial.

Vimos que você morou no Brasil. Qual a sua relação com o país? Você costuma ler autores brasileiros?

Sim, eu tinha dois anos de idade quando os meus pais foram morar em São Paulo. A minha infância toda ocorreu em São Paulo. E acho que foi uma viagem da que eu nunca voltei. Eu não consigo me segurar longe do Brasil muito tempo. Cada seis meses eu dou um pulo lá. E quando vou, sempre volto com alguma leitura nova. Mas adoraria que houvesse mais traduções e que pudesse encontrar mais vozes brasileiras aqui na Argentina. Temos que trabalhar nesse sentido. O trabalho das editoriais independentes, no Brasil e na Argentina, vem trazendo muitas vozes novas, valiosas. Temos que espalhar essas vozes.

Como foi o processo de publicação de seu livro “Cotidiano” no Brasil? Você acompanhou a tradução dos seus contos?

O processo de edição foi uma festa. Devo ao querido Bruno Ribeiro, amigo e escritor paraibano, a tradução desses contos. E devo ao querido Nathan Magalhães a edição tão cuidada do livro, inclusive essa capa, que acho linda demais. Estou muito agradecida. O Bruno Ribeiro fez um imenso trabalho com a tradução. Traduzir não é transcrever palavras, uma depois da outra, em outra língua. Cada língua é uma cosmovisão do mundo. Traduzir exige pensar uma história em outra língua. É uma alquimia. E o Bruno fez magia.

Você acha que seu trabalho como psicóloga influencia a sua escrita?

Eu acho que escrevemos com tudo aquilo que nos constitui: as experiências, as músicas que ouvimos, os ritmos de alguma voz infantil, as leituras que fazemos, as sintaxes que nos chamam, a formação que temos. Nesse sentido, acredito que é possível que os meus anos de trabalho com a psicologia se reflitam na minha escrita. Porém, eu não escrevo pensando nisso. Se essa influencia acontece é porque não consigo evita-la.

Como você concilia o seu trabalho como tradutora e professora com a escrita? 

Eu já nem discirno uma coisa da outra. Passo horas sentada fazendo qualquer uma dessas coisas: lendo um conto para uma aula de escrita, traduzindo, escrevendo. Quando não estou fazendo uma coisa, estou fazendo a outra. Ás vezes, quando estou escrevendo, perco a noção do tempo. Podem passar oito, dez ou quinze horas e eu não sai da cadeira. Uma vez tive um pesadelo muito vívido, acordei e fui direto ao computador. Fiquei lá sentada vinte e quatro horas, tentando exorcizar esse pesadelo. Quando olhei para o relógio não entendia direito que dia era.

Como são as suas aulas de escrita criativa?

Eu desfruto delas como se fossem um bom vinho. São encontros intensos, onda há alguém que quer escrever e algumas almas que tentam acompanhar esse trabalho delirante. Geralmente, trabalhamos sobre os textos em produção. Lemos eles antes de cada encontro. Quando nos reunimos, cada participante faz uma devolução ao companheiro e eu fecho a roda com os meus comentários. Normalmente, esses textos em processo nos permitem discutir alguns assuntos literários: pontos de vista, narradores, construção dos ambientes, linguagem, etc. Assim, pouco a pouco, vamos trabalhando aspetos teóricos e aspetos práticos da escrita criativa. Como for, resgato sempre os olhares sobre cada escrita, o compromisso com a linguagem, o esforço que isso significa. O Bolaño dizia que a literatura se parece bastante com a batalha dos samurais. Ele dizia que um samurai não luta contra outro samurai: luta contra um monstro. Ele sabe, de antemão, que será derrotado. Saber que serás derrotado e ter o valor de sair para o confronto: isso é a literatura.

Em sua biografia, percebemos que entre seu primeiro e segundo livro há um hiato de mais de dez anos. A que você atribui esse tempo entre as obras?

Talvez esta pergunta encontre resposta na primeira. O primeiro livro que publiquei, Manual de Psicologia Forense, era da época em que trabalhava como psicóloga. Foi a edição das aulas que dava na Universidade de Buenos Aires, nos anos noventa. Depois acabei deixando a profissão para me dedicar de cheio à literatura.

Em “Cotidiano” os contos tratam de situações corriqueiras. Você diria que essa temática é uma constante em sua obra?

O Juan Rulfo dizia que na literatura só há três assuntos: o amor, a vida e a morte. E que estamos escrevendo o mesmo desde Virgílio. Eu acho que ele tinha razão. Os assuntos são os mesmos, o que vai mudando é a forma. A literatura é um assunto de linguagem, pura forma literária. Cada escrita aporta uma impressão digital própria, singular. Na época das cavernas, aquele homem sem linguagem, quando quis dizer alguma coisa, acabou inventando a arte rupestre. Podemos pensar que estamos tentando dizer alguma coisa há trinta e cinco mil anos. Mas como há um resto, há aquilo que não pode ser dito, continuamos escrevendo.

Atualmente muitas autoras argentinas estão com livros publicados no Brasil. Mas a impressão é que ainda temos muito ainda a conhecer. Você poderia indicar algumas autoras contemporâneas a você para que possamos acompanhar?

Claro. Yamila Bêgné, Ariana Harwicz, María Negroni, Gabriela Cabezón Cámara, Ana Ojeda, Beatriz Vignoli, Florencia del Campo, María Gainza, Leila Sucari, Débora Mundani, Paula Tomassoni, Claudia Masin, María Sonia Cristoff, Silvina Gruppo, Pamela Terlizzi Prina, Mariana Sandez, Gabby De Cicco.

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