Pequenas Realidades

Por: Michelle Henriques | Em: 7 / novembro / 2019

Ano passado eu fiz uma thread no twitter sobre escritoras que foram ofuscadas por seus maridos escritores. Por exemplo, vocês sabem quem era Janet Opal? Ela era escritora, mas seu marido famoso, Isaac Asimov, é muito mais lembrado do que ela. O mesmo acontece com Tabitha King, que como entrega o sobrenome, é casada com um dos mestres do terror, Stephen King. 

Aqui no Brasil temos quase toda a obra de Stephen publicada, bem como a de seus filhos, Owen King e Joe Hill. A mãe deles, Tabitha, também é escritora, com mais de 15 trabalhos publicados, entre eles ficção, poesia, contos e teatro. Apenas uma obra dela havia sido lançada aqui pela Francisco Alves, As Miniaturas do Terror, em 1985. Neste ano, o livro foi relançado pela Darkside, dessa vez com o nome de Pequenas Realidades, com tradução de Regiane Winarski. 

Há anos eu queria ler esse livro, consegui um e-book, mas estava impossível de ler. Fui adiando, até que soube da notícia do relançamento. Meu plano era terminar de lê-lo e publicar a resenha ainda em outubro, Mês das Bruxas, mas a vida adulta me impossibilitou. Terminei nos primeiros dias de novembro e eu fiquei bem ansiosa para ler mais coisas dela. 

Devo dizer que Pequenas Realidades começa um pouco lento, muitos personagens são apresentados de uma forma um pouco confusa, misturando narração e trechos de reportagens. Até você entender quem é quem a leitura demora um pouco para engrenar, mas assim que isso acontece, é impossível largar o livro. 

Há vários personagens, mas considero cinco deles essenciais para o livro. Dorothy “Dolly” Hardesty Douglas é filha de um ex-presidente e também uma socialite controladora, mimada e sem escrúpulos. Ela passa boa parte do livro atormentando os outros para conseguir aquilo que quer. Ela se torna mais cruel a cada página. Ela tem um hobby diferente: casas de bonecas e miniaturas em geral. Aqui é impossível não se lembrar do filme Hereditário

Lucy Douglas é a nora de Dorothy. Viúva, ela mantém certa relação com a sogra por conta de seus filhos. Lucy também trabalha com miniaturas, e produz muitas peças para a sogra, entre elas uma réplica da Casa Branca. Lucy está envolvida com Nick Weiler, curador do museu no qual a réplica está exposta. Para complicar tudo, Dorothy teve um caso com Nick no passado, e a todo momento os relembra disso. 

Roger Tinker segue o estereótipo do cara solitário que vive com a mãe controladora. Ele trabalhava para o governo e estava desenvolvendo um dispositivo secreto capaz de transformar objetos em miniaturas. Ele procura Dorothy, afinal tem exatamente algo que ela precisava. Juntos eles passam a fazer coisas absurdas, como transformar um carrossel em miniatura. E aqui entra a jornalista Leyna Shaw, de quem Dorothy têm muito ódio, visto que ela a chamou uma vez publicamente de Dolly, seu apelido de juventude que ela detesta. Leyna também foi amante de Nick em dado momento, e isso acaba por afastar Lucy dele temporariamente. 

A primeira parte do livro serve basicamente para nos apresentar esses personagens, contar histórias do passado e mostrar as facetas cruéis de Dorothy. As coisas desandam de vez quando Roger transforma Leyna em miniatura e a mantém como prisioneira na réplica da Casa Branca. Ela é tortura por Dorothy de maneiras absurdas e seu sofrimento é narrado de forma muito crua. A partir daí o livro ganha um tom ainda mais sombrio e angustiante. 

Pequenas Realidades tem problemas típicos de um primeiro romance. O livro demora para engrenar, é um pouco confuso e tem alguns detalhes que pouco importam para a narrativa. Porém, da metade para frente, parece que há uma melhora na escrita de Tabitha e a trama se torna mais envolvente. De uma forma geral, eu considero o livro muito bom, principalmente para quem gosta de suspense com uns toques grotescos. 

Além de Tabitha ser uma ótima escritora, temos que lembrar que sem ela talvez King não tivesse escrito todos esses livros que conhecemos. Em mais de uma fonte li que ele havia jogado fora o manuscrito de Carrie, por não achar bom. Tabitha que tirou do lixo, deu pitacos e falou para ele enviar para editoras. Eles estavam passando por dificuldades financeiras e foi a publicação que os ajudou. E desde então fomos presenteados com alguns clássicos do terror.

Michelle Henriques

Michelle Henriques é louca dos gatos e trabalha com livros. Ama terror, café, escreve no blog Feminist Horror e no site Cine Varda.

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