Entrevista: Gabriela Soutello

Por: Leia Mulheres | Em: 27 / novembro / 2019

Conversamos com Gabriela Soutello a respeito de seu livro de estreia Ninguém vai lembrar de mim, publicado neste ano pelo Selo Ferina (Pólen Livros), que tem curadoria da Jarid Arraes. Por este livro, Gabriela ganhou na semana passada o I Prêmio Mix Literário.

1) Olá, Gabi. Ninguém vai lembrar de mim é seu livro de estreia. Você já escrevia antes?

Escrevo desde muito criança, mas passei a escrever mais constante entre por volta dos 16 anos, também quando comecei a encontrar e expandir minha sexualidade, me reconhecer nas diferenças, iniciar uma voz. Mas foi de 2012 pra cá que passei a encarar minha escrita como arte, como literatura. Tive alguns professores/escritores/mestres que, com seus olhares externos, me ajudaram a enxergar assim.

2) Você ganhou um edital para a publicação do livro. Como foi o processo todo?

Ao mesmo tempo em que Ninguém vai lembrar de mim é o parto de textos (e disposições e exposições e coragem) que marinavam há mais de dez anos, o processo desde que ganhei o edital foi super rápido. Por isso, também assustador. Tive dez meses para publicar um livro que ainda não estava pronto – eu tinha cerca de 40% dele -, e lidar com tudo o que envolvia esse universo – de divulgação a projeto gráfico, capa, mesas, entrevistas, produção constante de textos e por aí vai – pela primeira vez. Passei os quatro primeiros meses escrevendo e acompanhando a parte visual lado a lado com minha editora, Jarid Arraes, e com a artista e designer Débora Serralheiro. Conseguimos correr com os processos para que o livro, além de em São Paulo, pudesse ser lançado na FLIP no início de julho. Ainda não sei como deu certo. Foi incrível.

3) O que você acha do termo “literatura lésbica”? A sua poderia ser definida dessa forma?

Eu não sei se existe uma literatura lésbica. Existe uma literatura hétero? Acho que definir minha literatura, que ainda está tateando suas possibilidades, é limitá-la. Gosto de pensar que está em trânsito, e que tem todas as vertentes possíveis de caminho & expansão. Mas, sim, sou lésbica, ao menos até hoje, até agora, três da tarde. Minha literatura é literatura escrita por uma mulher cis lésbica, e certamente carrega absorções, vivências e percepções decorrentes disso. Acho importante, inclusive, falarmos sobre personagens lésbicas: termos espaço, termos histórias sendo contadas, reescritas, recriadas e lidas. Mas, mesmo entre lésbicas, há inúmeros recortes. Não somos todas iguais. Por isso a importâncias de estarmos em histórias, tantas de nós. Gosto de me ver como uma facilitadora disso; como alguém que buscou e busca tanto referências que se sente, hoje, capaz de também criá-las. Existir assim, à margem, fora do molde imposto, já é uma neonarrativa da existência.

4) Você está trabalhando num próximo livro? Pode nos adiantar alguma coisa?

Estou com ideias para um romance, mas ainda são muito aéreas, pouco palpáveis. Posso dizer que não vai tratar primordialmente sobre relacionamentos entre mulheres, embora a personagem principal seja lésbica. Quero mergulhar em algumas valas, em nervos que, embora sejam explorados há milhões de anos, ainda são insuficientes, incômodos, inexplicáveis para nós, humanos.

5) Como é ser escritora no Brasil, pensando em nosso cenário atual?

Não é dos cenários mais convidativos. Já me conformei com uma longa carreira de vida dupla: um emprego que me sustente e a literatura, que me dê um propósito, me alivie e me lembre do que realmente importa. Mas o governo atual dá todos os dias uma pílula de desesperança. Os cortes nas verbas para arte e cultura estão absurdos. Mesmo o edital que ganhei ano passado, cuja edição era a primeira, este ano já não existe mais. Festivais como o Mix Brasil, que tem filmes, peças, literatura e música sobre e para e feitos por LGBTQs, foi cortado em mais de 40%. Temos poucas perspectivas, mas gosto de pensar que é no anterior das coisas que não vemos que podemos&devemos que agir. Não vou deixar de escrever até que me obriguem. E sei que tem muita gente fazendo boa literatura hoje, um monte de escritoras e escritores contemporâneos incríveis, que também seguem existindo, com respiro, com arte, apesar de. Apesar de.

6) Quais as influências para a sua escrita? Não apenas literatura, o que te inspira?

Me inspiram longas conversas, madrugada afora, com vinho, ou pela manhã, com suco natural – adoro cafés da manhã. Gosto de estar com gente, de pensar e trocar aflições, angústias e alívios de existir. Me inspira poder ir até o fundo e voltar com outro olhar. Gosto muito de ouvir, de questionar, repensar, mudar de ideia, estar em movimento e compartilhar. Me inspira o centro de São Paulo, onde moro e por onde nutro um misto de repulsa e apego. Me inspira a noite urbana e dias frios ensolarados. Quebras de padrões, androginia, jazz&blues, o mar. Me inspiram as trocas sexuais, relacionais, amorosas, tudo que for de dor&afeto, de susto&casa, de abrigo&queda-livre. Me inspiram as mulheres da minha família, complexas e contraditórias, mas independentes: minhas veias ancestrais, individuais, sozinhas, sobreviventes com força. Me inspiram todas as pessoas que, colocadas desde sempre à margem, persistem. E, especialmente na literatura, me inspiram Clarice Lispector, Guimarães Rosa, Hilda Hilst, Herberto Helder, Matilde Campilho, Ana Cristina César, Caio Fernando Abreu, Manoel de Barros, Valter Hugo Mãe e mais um tanto.

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