Cotidiano

Por: Michelle Henriques | Em: 14 / novembro / 2019

De uns tempos para cá tenho lido muitos livros de contos, principalmente de mulheres da América Latina. Gostei muito de todos, e com Cotidiano de Mariana Travacio não foi diferente. Publicado em 2015 e recentemente lançado no Brasil pela Editora Moinhos e com tradução de Bruno Ribeiro, este é um livro curtinho, mas com um fôlego imenso. A autora nasceu em Rosário, na Argentina, cresceu em São Paulo e hoje mora em Buenos Aires. Formada em psicologia e mestre em Escrita Criativa, Mariana tem publicações no Brasil, Cuba, Espanha, Estados Unidos, Argentina e Uruguai. 

Como diz o título, cada pequena história representa um pouco do dia a dia. Mariana explora vidas simples e seus acontecimentos, com um tom bastante próprio. O conto que abre o livro “Semana Santa”, já mostra o que podemos esperar do livro: uma história simples, direta e objetiva, mas com muito nas entrelinhas. Nele, uma mulher um tanto submissa, acompanha o marido numa viagem para o interior. Eles vão a um bar e ele a deixa sozinha, até que um homem se senta a seu lado e começa a lhe fazer perguntas sobre seus gostos e pensamentos. 

O conto seguinte, “Trajetórias”, constrói a narrativa com duas história paralelas: um homem levando seu filho para a escola, enquanto o outro está trabalhando numa obra. Suas vidas se cruzam de uma forma bastante triste. Gosto muito desse tipo de narrativa, de histórias que se entrelaçam. 

Um de meus contos preferidos, “Construção”, é formado pelos diários de Ana Laura, uma mulher que perdeu a memória. Em cada entrada ela conta um pouco da dificuldade de se conectar com as pessoas que dizem fazer parte de sua vida. É um conto bastante melancólico, mas com um tom esperançoso. Impossível não se sentir angustiado junto com a personagem. 

Cada conto aborda um aspecto de nossas rotinas, bem como relacionamentos abusivos, a velhice e a amizade. “Fendas” trata da relação entre vizinhos. A casa ao lado é barulhenta, a ponto de incomodar, mas no momento em que o silêncio se faz presente, sente-se falta do caos. 

“Ninguém ali” é extremamente tocante, trata de um velhinho que se sente sozinho e triste com as limitações do corpo idoso. Enquanto que “O Último Diário de Ofélia Ortiz” traz outra perspectiva do envelhecer. A escritora idosa se sente cada vez mais irritada, melancólica, niilista e ao mesmo tempo saudosista. 

Livros de contos geralmente demoram para me conquistar. Fico procurando unidade entre o que está escrito ali, e encontrei em Cotidiano. Mariana Travacio nos conta histórias aparentemente banais, que podem acontecer ao nosso redor, mas de forma bastante interessante, com uma escrita poderosa e com rotinas que prendem atenção. Podia ser a história de cada um de nós naquelas páginas.

Michelle Henriques

Michelle Henriques é louca dos gatos e trabalha com livros. Ama terror, café, escreve no blog Feminist Horror e no site Cine Varda.

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