Água Funda

Por: Júnia Botelho | Em: 11 / novembro / 2019

Água Funda é um romance lançado em 1946, escrito por uma mocinha de 21 anos, que tinha uma percepção profunda do seu tempo e do seu lugar.  Conta o seu universo de forma simples e clara, reconstituindo etnograficamente a linguagem caipira entrelaçando diferentes tempos e personagens de uma comunidade rural na Serra da Mantiqueira.

É uma prosa, uma conversinha, ágil e fluida, cheia de expressões populares, de causos, de superstição e de fatalismo. São histórias de Sinhá Carolina, e do casal Joca e Curiango, histórias de gente que se encontra em todas as cidades e muitos leitores já os encontraram, escreveram para a autora perguntando se a Sinhá não era fulana que agora estava em tal lugar. São falas que remetem a infâncias desses leitores, que se reconhecem. Mas são também uma voz de personagens fortes, mulheres e homens, pobres e ricos, escravos e senhores. Contraposições o tempo todo. Ires e vires o tempo todo. Vamos sabendo aos poucos, somos introduzidos e conduzidos.  

O romance narrado em terceira pessoa, por um narrador onisciente que tudo vê, tudo sabe e tudo lembra. Uma voz com feitio de contadora de casos, que a todo tempo lança um “ouvi dizer”, “o povo é quem diz”, ou ainda: “Homem! Como não faço fé em gente sem boca!” comenta Fernanda Miranda, em seu artigo Os Fluxos Contínuos de Ruth Guimarães e de seu livro Água Funda.

Já Antonio Cândido, na edição de 1946, afirma que “(…) não há dúvida que o seu romance (se for romance) encanta pelo equilíbrio da narrativa e o puro sabor das coisas naturais.”

Na edição de 2003, ele complementa: “Este livro exprime bem o equipamento cultural e a visão de mundo de Ruth Guimarães, prosadora de qualidade e conhecedora profunda da cultura popular brasileira. É um romance, mas escrito como se fosse prosa afiada, como se fosse narrativa caprichosa que vai indo e vindo ao sabor da memória, ao jeito dos contadores de casos. Esta primeira impressão é justa, mas não deve esconder do leitor o que há neste livro de composição deliberada, de técnica bastante complexa, rica em elipses, em saltos temporais, em subentendidos. (…). O que estou procurando sugerir é a complexidade dessa narrativa despretensiosa, que sabe fundir os planos e passa com tanta maestria do individual ao coletivo, do natural ao social, do real ao mágico.”

Ruth Guimarães escreveu um único romance – e conseguiu deixar um legado valioso para a literatura brasileira. Não porque é negra. Não porque é mulher. Não porque é caipira. Mas porque é escritora. Das boas!

Júnia Botelho

Júnia Botelho é formada pela USP em Letras (francês, português e italiano). Especializada em tradução e com Mestrado na Sorbonne/Paris, com ênfase no estudo da semiótica, linguística e semântica das línguas portuguesa e francesa. É tradutora juramentada do idioma francês, nomeada em 2000. Professora de francês e de português para brasileiros e estrangeiros.

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