Entrevista: Cidinha da Silva

Por: Leia Mulheres | Em: 3 / setembro / 2019

Conversamos com a escritora Cidinha da Silva, que lançou recentemente uma nova edição de seu livro #Parem De Nos Matar!, uma parceria da Kuanza Produções e da Pólen Livros. Confiram!

Cidinha, tudo bom? Como você começou a escrever? Você teve dificuldades em publicar o seu primeiro livro?

Tudo bem, obrigada.

Comecei a escrever na adolescência, coisas muito ruins, impublicáveis. Não fui alguém que começou bem, não, mas ali havia uma centelha importante do desejo de escrever. Ela adormeceu quando entrei para a universidade (1985) e reapareceu 20 anos depois, num período de grande mudança de vida (2005). Naquele momento eu escrevia textos que considerava peças de artivismo (ativismo político pela escrita ou a escrita como ferramenta política) e de fato, o eram. Publicava em periódicos do movimento negro e em um boletim eletrônico de uma organização política criada por mim e por outras mulheres negras. Esses textos, crônicas e artigos opinativos, eram muito lidos e tinham certa repercussão. As pessoas começaram a me perguntar quando teríamos um livro. Essa pergunta recorrente me motivou a pensar no primeiro livro e a executá-lo. É importante destacar que no período de 1991 a 2005 escrevi dezenas de ensaios publicados em periódicos diversos e em livros, coisas sem nenhuma perspectiva literária, mas sempre com cuidado na escrita.

Quanto à primeira publicação, fazer o primeiro livro é quase sempre uma aventura. De um modo geral a gente tem muitos sonhos, idealizações e desconhece a realidade do mercado editorial. Por exemplo, a gente reclama que as editoras não querem investir em autores e autoras iniciantes, contudo, é difícil mesmo. Algumas pequenas editoras sequer têm capital de giro para isso, elas publicam e os livros precisam se pagar e isso leva algum tempo porque a venda de livros é muito lenta.

Sempre fui curiosa para entender o funcionamento do mercado editorial e tinha também alguma experiência em publicações. As duas editoras que procurei para possível edição do meu primeiro livro cobraram valores bem acima do que eu poderia pagar (elas colocavam um preço pela marca também e não deixa de ser correto). Então, com a ajuda de amigas, contratei os serviços necessários (revisão, diagramação, capista, uma boa gráfica) e fiz o livro. Iniciei minha trajetória pela auto-publicação por ser mais econômico e porque nenhuma editora quis me publicar com seus próprios recursos.  Não considero que tenha tido dificuldades que ultrapassem os parâmetros da normalidade para o primeiro livro de uma autora desconhecida e cheia de imprecisões e cacoetes militantes.

Crônica parece ser o gênero que você mais escreve. Poderia falar da sua preferência por ele? 

Escrevo crônicas por gosto e por contingência, posto que é o gênero que me demanda menos tempo e meu tempo de dedicação à escrita é muito curto. O gosto vem da infância, da descoberta da literatura pela crônica, pelos cronistas mineiros, Drummond, Paulo Mendes Campos e Fernando Sabino, cuja leitura despertou minha vontade de escrever minhas próprias histórias. Mais tarde, jovem adulta, o refinamento da crônica de Lima Barreto e João do Rio também me encantou. Entre as mulheres cronistas gosto muito de Raquel de Queiroz, cronista das melhores.

Esta é a segunda edição de #Parem de nos matar!, seu mais recente lançamento. Do que trata o livro?

O volume reúne crônicas escritas entre 2012 e 2016 que leem o Brasil pela ótica das relações raciais assimétricas que nos fundamentam como país. É um livro que aborda os resultados da política racial genocida que tem eliminado as pessoas negras na chamada “guerra às drogas” e em outras situações de violência, nas quais o estado, por meio de seu braço armado, a polícia, decide que os corpos negros podem ser dizimados como baratas ou ratos. É um livro que aborda também as formas simbólicas e subjetivas pelas quais o racismo aniquila seus alvos e, além de tudo isso, aborda a resistência, os caminhos que as pessoas negras e suas instituições têm trilhado para existir a despeito do racismo e suas formas insaciáveis de matar.

Você tem uma própria editora chamada Kuanza Produções. Como é o trabalho de publicar alguns de seus próprios livros?

É uma forma de viabilizar o meu projeto literário, pois nem todas as editoras, entre aquelas que me interessam, investirão nas minhas ideias, principalmente no tempo que desejo executá-las, que às vezes é bem curto. Por exemplo, estou editando uma coleção com minhas melhores crônicas publicadas até 2014, para a qual planejei sete volumes – seria bem difícil que qualquer editora que não fosse a minha mesmo, bancasse essa ideia. Já publiquei os dois primeiros volumes, chamados Exuzilhar e Pra Começar; o terceiro, chamado Amores entre iguais sai até novembro deste ano. Do 4º ao 7º volume devem sair em 2020, um tratará de humor e ironia; outro de crítica da mídia; outro da morte e outro do tempo. Estes são alguns dos temas recorrentes em meu trabalho e achei que valeria a pena investir nessa série. Não me cabe esperar que outras editoras avaliassem positivamente essa ideia que tem um que de ousadia. Cumpria-me então, coloca-la em prática com meus próprios (mesmo que parcos) recursos.

Este ano você também publicou uma nova edição do livro infantojuvenil Kuami. Como é escrever para o público mais jovem? Você acha que a forma de abordar temáticas sensíveis deve ser diferente?

Parto do princípio de que todo e qualquer tema deve ser tratado com as crianças. O grande desafio é construir a linguagem adequada para fazê-lo. No Kuami aparecem vários dos chamados temas sensíveis: uma personagem que desaparece e nunca mais é encontrada; outra personagem que é morta pela ação direta de grileiros em terras cercadas de maneira ilegal; trabalho escravizado na contemporaneidade, entre outros. Tudo isso em meio à história central de amor e amizade de Kuami, o elefantinho, Janaína, a sereia, seus amigos e familiares.

Você é uma autora que está sempre em feiras, vendendo os próprios livros e conversando com seus leitores, bem como está sempre presente nas redes sociais. Como você acha que essa proximidade impacta no seu trabalho?

No meu trabalho de escrita não impacta em nada. Às vezes rende anotações para escrever algo a partir de situação que tenha potencial para ser explorado numa crônica. Talvez funcione para verem que a autora é de carne e osso (mais carne do que osso). Digo isso porque é comum pessoas que não me conhecem ou até gente que já viu imagens nas redes sociais, não associarem a autora daqueles livros todos que estão ali expostos a mim que os estou comercializando. Eu poderia até dizer que é engraçado, mas acho mesmo bizarro, pra usar uma expressão da moda. O impacto real é na circulação da obra, minha presença faz com os livros cheguem, de fato, ás pessoas.

Por fim, poderia indicar algumas escritoras para nós?

Sim, com prazer. Imagino que vocês conheçam todas, mas vamos lá:

Na poesia brasileira contemporânea recomendo a leitura da gaúcha Eliane Marques, da mineira Mariana de Matos e da brasiliense Tatiana Nascimento.

Na prosa meu grande encanto são as escritoras africanas e da Diáspora que têm sido publicadas no Brasil. Minhas favoritíssimas são: Lesley Nneka (uma das melhores escritoras que já li na vida), Paulina Chiziane e Leonora Miano.  Sempre vale também a leitura de Scholastique Mukasonga e Buchi Emecheta.

Muito obrigada, Cidinha!

Leia Mulheres

Veja outros posts de Leia Mulheres