Sobre Igiaba Scego

Por: Michelle Henriques | Em: 14 / agosto / 2019

A primeira vez que ouvi falar de Igiaba Scego foi ano passado, quando ela veio para a Flip. A autora, nascida na Itália, e com família de origem somali, possui mais de dez título publicados. Três livros dela saíram aqui pela Editora Nós: Minha Casa é Onde Estou, Adua e Caminhando Contra o Vento. Essas obras estavam na minha (eterna) lista de leituras, até que recebi um convite sensacional: entrevistar a autora. Ela veio para o Brasil para uma série de eventos, e eu tive a honra de conversar com ela no último sábado na biblioteca Mário de Andrade, um dos meus lugares preferidos de São Paulo.

Assim que recebi o convite eu corri para ler seus livros, passei duas semanas mergulhada no mundo de Igiaba Scego. Comecei com Minha Casa é Onde Estou que é uma espécie de autobiografia. Mas mais do que isso, é um riquíssimo livro de história. A autora é formada em literatura moderna e seu doutorado é em estudos pós-coloniais, mas ao ler esse livro sentimos que ela é uma historiadora. Com uma escrita totalmente acessível ela nos conta sobre sua família, mesclando com a história da Somália e por sua vez, com a da Itália. Aliás, aqui fica um parênteses para comentar a minha ignorância em relação à história dos países do continente africano. Eu não fazia ideia de que a Somália havia sido colonizada pela Itália e que sua independência só veio nos anos 60. Na escola focamos tanto em Estados Unidos e Europa, e esquecemos da África. Se bem que, com a nossa situação política atual, presume-se que nem a história brasileira a gente conheça direito.

Após essa leitura, parti para Adua, romance de ficção de Igiaba. Aqui senti ecos do livro anterior. Adua é uma mulher da Somália que parte para a Itália em busca do sonho de se tornar atriz. Nem tudo são flores e ela encontra dificuldades absurdas. Os capítulos se intercalam entre a vida de Adua e a de seu pai. Também temos a história da Somália como plano de fundo, bem como a da Itália fascista.

Por fim, Caminhando Contra o Vento já no título nos entrega a que veio: Caetano Veloso. A autora é apaixonada pelo trabalho do artista e esta é uma biografia afetiva. Aqui também temos um pouco da vida de Igiaba, e novamente, a autora historiadora se faz presente. Ela fala do Brasil na época da ditadura, da Bahia e descreve suas canções preferidas de Caetano. Eu não sou muito fã dele, mas da forma que ela escreve eu senti vontade de correr para escutar os discos.

Depois desses três livros eu estava pronta para conversar com Igiaba. Mentira, não estava, fico ansiosa quando vou conhecer alguma pessoa que admiro. Sempre tenho aquele medo de me decepcionar, e pior, decepcionar a escritora. Felizmente isso não aconteceu. Ela é uma pessoa atenciosa, gentil, se arrisca no português e se sai muito bem. Não sei muito de italiano, mas ela fala de forma tão calma e serena que eu entendia praticamente tudo que ela dizia. Ela gosta muito do Brasil, já tinha vindo para cá antes mesmo da Flip a passeio. Na entrevista, descobri que mais um livro seu vai sair aqui: Outra Babilônia. O título talvez mude, me disse a editora Simone Paulino.

Igiaba nos explicou que está finalizando um novo livro, que fecha a trilogia que começou com Outra Babilônia e passa por Adua. Não é necessário ler os livros na ordem, mas para ela, eles estão ligados. Outra Babilônia foi publicado em 2008, mas saiu neste ano nos Estados Unidos como Beyond Babylon e com prefácio de Jhumpa Lahiri. Não me aguentei e tive que perguntar se ela gosta de Elena Ferrante. Ela riu da forma como pronunciei o sobrenome.

Igiaba Scego é uma mulher negra vivendo num país que um dia foi dominado pelo fascismo. Filha de refugiados, passou por inúmeras dificuldades quando jovem, afastada da mãe por um longo tempo e sofrendo racismo das pessoas que a cercavam. Seus livros falam sobre guerras, sobre colônias, e sobre a história contada pela voz de quem viveu de perto, seja por ela mesma ou pela família. Ela nos traz o que há de mais belo de sua cultura, das vestimentas à comida. Ler seus livros é visitar aquele belo país sem se mover.

Essa foi a segunda vez neste ano que tive a oportunidade de conversar com uma autora internacional que admiro. A primeira foi Caitlin Doughty. Sempre fica aquele nervosa de não saber o que dizer, de autora não ir com a minha cara, e para minha sorte, foram duas experiências incríveis, cada uma a sua maneira. Espero rever Igiaba em breve, e espero ainda mais que tenhamos mais livros dela a nossa disposição. Ela merece, e deve, ser lida.

Michelle Henriques

Michelle Henriques é louca dos gatos e trabalha com livros. Ama terror, café, escreve no blog Feminist Horror e no site Cine Varda.

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