Resenha Ilustrada – Céu Sem Estrelas

Por: Aldrey Riechel | Em: 26 / julho / 2019

Céu Sem Estrelas, de Íris Figueiredo, é um livro delicado sobre força. Um livro que se não existisse, precisaria ser inventado. Para quem passou a adolescência buscando se encontrar no meio de livros, é um alívio saber que hoje existem histórias com personagens diversos. Me vi em Cecília. E principalmente, vi muito do meu passado em Cecília.

O livro conta a história de uma jovem que acaba de entrar na faculdade e já nas primeiras páginas é demitida do primeiro emprego bem no dia do seu aniversário. Presentão! Cecília também tem uma relação conturbada com sua mãe e após discussões, acaba indo passar um tempo na casa da sua melhor amiga, Iasmin, e assim, esbarrando com Bernardo, o irmão, por quem sempre teve uma quedinha.

Lançado pela editora Seguinte, selo da Companhia das Letras o livro tem duas perspectivas, sendo narrado ora por Cecília ora por Bernardo. A trama, no entanto, é muito mais do que uma história de amor juvenil. Ou melhor, não se resume a isso. É cativante a história do casal, te prende na leitura, mas no decorrer do livro outras questões surgem dando personalidade e questões próprias para cada personagem.

Íris escreve literatura jovem de forma madura. Cecília além da história com Bernardo precisa lidar com os conflitos familiares e a falta de autoestima, que é enfraquecida cada vez mais pelo julgamento que os outros fazem do seu corpo. Stephanie, uma jovem negra que busca um estágio onde seu cabelo crespo não seja indicador de que sua capacidade profissional e até Bernardo, tem conflitos interessantes ao questionar e tentar fugir dos padrões de masculinidade tóxica imposto aos homens.

No entanto, o que mais chama atenção é o debate sobre saúde mental que a autora apresenta. Me agrada a escolha da autora que conta sobre depressão, ansiedade e automutilação sem utilizar eufemismos.  Cecília, em parte do livro entra em crise e não de forma romantizada ou superficial.  Gosto que não seja algo rápido. Em filmes – e alguns livros – as crises são retratadas de forma romantizadas, com uma música triste no fundo, um dia de choro escorregando pela parede e pronto! No dia seguinte a história já muda para superação, determinação ou como a pessoa se tornou mais criativa tendo experimentado sofrimentos.

Em Céu Sem Estrelas não.  Cecília precisa de ajuda, preocupa os amigos, muda o comportamento e impacta não só seu dia a dia, como dos que estão a sua volta.  E retornar à rotina é um trabalho diário e que necessita de acompanhamento e tratamento médico.

Eu, quando li o livro, desejei muito viajar no tempo e entregar uma cópia de Céu Sem Estrelas para minha versão jovem, desejando não ter demorado tanto tempo para entender alguns problemas. Eu gostaria que alguém tivesse conversado comigo sobre esses assuntos, que tivessem me ajudado a nomear o que eu sentia e ia adorar que fosse um livro com a história de Cecília e Bernardo. Mas minha máquina do tempo nunca ficou pronta, sobrando aceitar e agradecer pela história também ensina sobre aceitação e segundas chances.

Céu Sem Estrelas é um abraço.

Aldrey Riechel

Aldrey Riechel é jornalista, ilustradora e escritora. Atua como jornalista ambiental no terceiro setor desde 2008. Integrou a rede OXFAM International Youth Partnerships até 2010. Integrante e idealizadora do coletivo artístico Não-Lugar.

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