Redemoinho em dia quente

Por: Michelle Henriques | Em: 1 / julho / 2019

Conheci Jarid Arraes por seu livro Heroínas Negras Brasileiras em 15 Cordéis e o Leia Mulheres SP teve o prazer de recebê-la para um bate-papo em 2017. Ano passado a autora publicou seu livro de poemas Um Buraco com Meu Nome pela Ferina (selo da Pólen Livros) e agora lança seu primeiro livro de contos pela Alfaguara.

Confesso ter um pouco de dificuldade com a leitura de contos. Não são todos que chamam a minha atenção, acabo esquecendo do que um ou outro se trata, mas com Redemoinho em dia quente eu não tive problemas. Todos eles possuem mulheres protagonistas e se passam no Cariri, local onde Jarid nasceu. Os contos passam por temas como religiosidade, diversidade sexual, infância, e o tom melancólico se faz presente em muitos deles. O livro é dividido em duas partes, Sala da Candeias e Espada no Coração. Três dos meus preferidos estão na segunda.

O que mais gosto da incursão de Jarid pelos contos é a diversidade dos temas. Ela conseguiu juntar histórias aparentemente opostas, mas com muitas semelhanças. Temos uma idosa que toma drogas e tem alucinações com anjos. Também temos a abordagem do racismo ao contar a história de uma criança negra e sua relação com a prima ruiva. Há também o tema do abuso sexual e da culpabilização da vítima.

O conto Cachorro de Quintal chamou a minha atenção pela semelhança com a minha infância. Cresci em São Paulo, mas aqui nos anos 90 também era bastante comum as casas terem um cachorro que vivia apenas no quintal, era o guardião. Na casa da minha avó era a Ágata. Mesmo há quilômetros de distância, o conto narrou algo que vivi.

Além de narrar memórias de infância, Jarid também flerta com o terror (gatinhos fantasmas) e o sobrenatural (aqui não dou detalhes porque seriam spoilers). Essa diversidade de temas me lembra um pouco sua poesia. Em Um Buraco com Meu Nome ela escreveu sobre depressão, melancolia, machismo, racismo. Todos os temas se contemplam e se completam, numa unidade que Jarid conseguiu amarrar com muito domínio.

Gostei do livro como um todo, mas destaco três contos como meus preferidos. Gesso trata de uma mulher num relacionamento abusivo que decide ficar na casa da vizinha rezando para não ter que voltar logo para a casa. Ela diz que aquela oração é necessária, e o homem não pode tirá-la de lá. Os fatos dos gatos dispensa maiores comentários. Amo gatos mais que tudo e Jarid escrevendo sobre eles é sensacional. Como é ruim cair num buraco é um dos que mais me emocionou e Olhos de cacimba, que fecha o livro, é o que mais gostei.

Os contos de Redemoinho em dia quente possuem como protagonistas mulheres bissexuais, mulheres trans, mulheres velhas, mulheres marginalizadas. A escrita de Jarid Arraes é direta ao mesmo tempo que é poética, narrando fatos cotidianos, histórias que conhecemos de nossas próprias vidas. São vidas inventadas, mas que com certeza já ouvimos algo parecido. Esse é um dos pontos positivos de sua escrita, os temas universais que ela aborda tornam muito fácil a identificação, então é impossível não mergulhar de cabeça em sua escrita.

Michelle Henriques

Michelle Henriques é louca dos gatos e trabalha com livros. Ama terror, café, escreve no blog Feminist Horror e no site Cine Varda.

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