Para lembrar de Assionara Souza

Por: Samita Barbosa | Em: 24 / julho / 2019

Minha descoberta literária mais intensa dos últimos anos foi Assionara Souza. Acho que existe algo que me atrai fortemente na literatura produzida pelas escritoras de Curitiba. Da poesia inspiradora de Alice Ruiz à prosa instigante de Luci Collin, frequentemente pego meu olhar se voltando para o que as poetas dali estão produzindo, e sempre encontro escritas que me instigam e me envolvem com muita força. E a de Assionara Souza é a principal delas.

A escritora na verdade nasceu em Caicó, no Rio Grande do Norte, mas era radicada em Curitiba e nos deixou há mais ou menos um ano, com 5 livros publicados: Cecília não é um cachimbo (2005), Amanhã. Com sorvete! (2010), Os hábitos e os monges (2011), Na rua: a caminho do circo (2014) e Alquimista na chuva (2017). Todos de contos, com exceção de Alquimista na chuva, seu primeiro livro de poesia.

Apesar de tantas publicações de prosa, foram os seus poemas que primeiro me chamaram a atenção, os quais ela publicava com bastante frequência em blogs e nas suas redes sociais. Assionara transita de uma maneira muito fluida e confortável entre o conto e o poema. Fluida inclusive para nós leitores. Ler seus poemas para mim são sempre um mergulho em que vamos nos aprofundando e que só no final voltamos à tona para tomar fôlego. Assim como os contos, em que a sua escrita, tão poética, nos leva a adentrar num percurso aparentemente simples do cotidiano, a caminho do circo, do trabalho, da sorveteria, ou por um devaneio qualquer numa esquina, o qual vai nos envolvendo e nos levando numa caminhada ociosa.

Sua escrita nos tira do lugar de um jeito muito sutil e divertido. Seus contos e poemas começam sempre com aquelas frases ou versos que, quando você percebe, já foi fisgado a continuar a leitura, e vai seguindo muitas das vezes com um sorriso leve de lado por alguma referência cinematográfica, musical, da cultura pop no geral ou mesmo literária que parece ter sido deixada ali pra isso, como a epígrafe de Na rua: a caminho do circo, que é um trecho inicial de Where is my mind, do Pixies; os contos que começam com “Se hoje não for o dia de sua morte, arrisque. Tente mais um pouco, Afinal de contas a natureza deixou você escapar.” Ou “Começar no fim é coisa de quem se perdeu.” Os próprios títulos dos livros já são sempre um convite para o leitor sair e ir acompanhar esse percurso qualquer pela cidade, que vai inevitavelmente levar ao percurso da vida e dos pensamentos e sentimentos que estamos sempre levando ao atravessar a rua “às três da tarde em frente àquele cinema mofado no centro da cidade”. E é como se estivéssemos acompanhando um filme, cena por cena, acompanhando essas idas ao cinema, a um café, ao parque, à praça ao circo.

Às vezes a sensação que tenho ao ler Assionara Souza é de que há na sua escrita um tanto do que eu poderia tentar procurar em Kafka ou em Trevisan, mas que eles não trazem. E são ambos escritores muito queridos por ela, porém há esse algo entre os dois que não sei explicar, e que Assionara encontrou, trazendo genialmente na sua escrita. Que feliz ela ter estado entre nós para nos trazer isso! E como melhor do que falar de poesia é sempre lê-la, deixo abaixo um dos poemas do livro Alquimista na chuva. Que continuemos lendo Assionara Souza!

Nada a perder
Fim de partida
Um corpo sem qualquer expectativa
O mais sincero
O menos armado
Mas disposto a saber
Da pérola incrustrada dentro da ostras
Das horas

Você do outro lado da rua
E a rua um rio feito fluxo
Minha, a margem urgente
Torrente
Escombros dizimados de passados
Deslizando pela enxurrada
Tua margem, calçada de bar
A menina de lá
Acena e sorri
Um frame lisérgico
Fotografar tua imagem
Editar: recortar: colar
Cenário límpido de mar
[eu te levaria para o terraço de um prédio alto
As pessoinhas pequenas lá longe: e nós
Eu te levaria para uma praia deserta
O mar violento se agigantando: e nós]

Samita Barbosa

Samita Barbosa tem 27 anos, é graduada em História, graduanda em Letras e mestranda em Estudos Literários. É uma das mediadoras do Leia Mulheres Uberlândia e ama poesia, batata frita e ouvir música, não necessariamente nessa ordem.

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