Mulheres Difíceis

Por: Michelle Henriques | Em: 31 / julho / 2019

Não me lembro como conheci Roxane Gay, provavelmente foi no twitter. Inclusive, adoro acompanhá-la por lá, sempre muito bem humorada, respondendo as pessoas escrotas de uma forma debochada, comentando assuntos atuais. Resumindo, ela é ótima e eu estava ansiosa para ler algo dela. Não li Má Feminista e nem Fome, esse último inclusive está na minha mesinha de cabeceira esperando seu momento. Para o mês de julho no Leia Mulheres de São Paulo nós escolhemos seu lançamento mais recente aqui no Brasil, Mulheres Difíceis, com tradução de Ana Guadalupe. 

Eu não fazia ideia do que se tratava o livro, mas eu esperava algo com bom humor, daquela Roxane que acompanho pela rede social. O livro é formado por contos que a autora já havia publicado em diversos veículos. Não consigo nem descrever o choque que tomei logo no primeiro conto. “Eu vou seguir você” conta a história de duas irmãs que saem de casa para morar com o namorado de uma delas, que não é um homem bom, mas também não chega a ser tão mau assim, nas palavras de uma das personagens. Logo aqui eu já percebi que algumas temáticas iriam permear o livro todo, principalmente a da pobreza, violência contra mulheres e a destruição do sonho americano. 

Alguns temas se repetem, ela conta as mesmas histórias com personagens diferentes. Abortos e morte de crianças são constantes nos textos, bem como o sexo violento, a caça e as poucas perspectivas que as ditas mulheres difíceis têm na vida. Roxane Gay aborda também a gordofobia e a fetichização do corpo da mulher negra. Muitas dessas mulheres não aceitam elogios ou delicadeza, se relacionam com homens errados por conta de seus traumas. Elas usam o sexo como uma forma de punição ou para escapar das realidades péssimas que vivem. 

Mesmo falando da dura realidade, Roxane utiliza elementos da fantasia e até mesmo da distopia para contar essas histórias. No conto “Água, todo seu peso”, ela fala de uma nuvem negra em cima da cabeça da personagem como uma metáfora para a depressão. Já no conto “Coisas Nobres” a autora criou uma distopia, na qual os Estados Unidos estão separados entre norte e sul, numa retomada da Guerra da Secessão. 

Meu conto preferido do livro se chama “Como”. Nele a autora coloca todos os elementos que estão no livro, dos traumas da personagem, do sexo como escape, da violência, do abandono (aqui da mãe), da relação entre duas mulheres, da falta de perspectivas. Essas mulheres sabem que estão numa situação ruim e precisam arrumar uma solução. Não há tempo para se lamentar, todas são pobres e/ou estão sem situação de perigo, elas precisam dar um jeito. A violência é algo do dia a dia para elas, e Roxane trata disso com normalidade, no texto não vemos os fatos narrados com surpresa ou comoção, é apenas o cotidiano delas. 

Outro ponto em comum em diversos contos é a vulnerabilidade das mulheres, tanto das esposas quanto das amantes. Elas são colocadas num mesmo patamar, sem vítimas, sem putas ou santas. No conto “Na ocasião da morte do meu pai” vemos os laços criados entre a amante e a filha, com um final aberto às nossas interpretações. A autora trata das minorias, das mulheres, das pessoas pobres, das pessoas negras. E quando fala das pessoas ricas, fala do deboche, do mundo irreal que vivem, que excluem os demais. 

Roxane Gay é assertiva, ela não nos poupa com a crueza de suas palavras. No conto “Um tapinha” temos as relações familiares que nos moldam pela vida inteira. A mãe aconselha a filha quando criança que seja amiga dos isolados, dos fracos, para que ela possa se sentir bem consigo mesma. É preciso pensar em si mesma, é uma forma de proteção. 

A autora repete temas e perde um pouco o fôlego em alguns contos mais longos, mas nada impediu que esse se tornasse um dos melhores livros que li nesse ano. Sempre brinco que gosto muito de mulheres maravilhosas que escrevem contos estranhos, e Roxane por pouco não entra nessa categoria. Seus contos são estranhos em sua normalidade. Assim como Mariana Enriquez, ela escolheu falar da realidade feia. Seja dos Estados Unidos, da Argentina, do Brasil ou do México, as mulheres sempre serão consideradas difíceis, até mesmo quando estão tentando sobreviver.

Michelle Henriques

Michelle Henriques é louca dos gatos e trabalha com livros. Ama terror, café, escreve no blog Feminist Horror e no site Cine Varda.

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