Americanah

Por: Izabel Soares | Em: 22 / julho / 2019

Conheci a autora Chimamanda Ngozi Adichie através de alguns discursos públicos e já havia simpatizado com sua forma leve, direta e sarcástica de abordar temáticas sociais a partir da própria experiência, como mulher nigeriana que vive entre os Estados Unidos e a Nigéria. Trabalho com a temática de gênero e, por isto, tenho acesso a diversos livros ligados ao tema. Li, em uma tarde parada, Como Educar Crianças Feministas de Chimamanda, e o que me fez seguir a busca por obras da autora foi o modo de escrita semelhante as suas falas: leve e objetiva.

Em Americanah, Chimamanda conta a história de Ifemelu, uma jovem nigeriana que se muda para os Estados Unidos nos anos 90, deixando família e o namorado Obinze, almejando uma vida diferente da que levava na Nigéria, que, por sua vez, enfrentava um período de repressão militar. Na América, Ifemelu ascende com seu blog, que traz questões referentes a sua experiência como uma mulher negra nigeriana nos Estados Unidos, contrastando com a identidade negra americana. Apesar de o clímax da obra ser a vida de Ifemelu na América, Chimamanda contextualiza sua infância e adolescência na capital nigeriana, Lagos, descrevendo detalhadamente as/os personagens que a rodeiam, cujos nomes africanos nunca temos a certeza da pronúncia.

Apesar de Americanah ser, também, um romance, Ifemelu em nada lembra as personagens de literatura romântica habitual. Chimamanda a descreve como uma jovem bonita e atraente, porém, fora do padrão de beleza vigente. Outras características ligadas ao estereótipo feminino, como a delicadeza e os bons modos, também passam longe da descrição de Ifemelu: ela fala o que pensa, é vista pelos amigos como uma mulher “difícil de lidar”, é independente e nada para ela é fácil. Ao longo da obra, percebe-se a batalha de Ifemelu por estabilidade nos Estados Unidos, além da intermitência entre a dureza e a sensibilidade da personagem.

Embora o livro dê enfoque a história particular de Ifemelu, um dos pontos principais é a história de amor entre ela e Obinze. Desse modo, Chimamanda oscila os capítulos entre o ponto de vista dos dois, descrevendo vida atual e lembranças, dando a quem lê uma melhor contextualização da realidade de cada um no momento em que se reencontram. Algo que, pessoalmente, chamou minha atenção na fase de reencontro entre os dois foi o fato de que Ifemelu nunca deixa sua identidade de lado, mesmo diante de alguns dilemas com o homem por quem é apaixonada. Percebe-se que, embora com dificuldades, Ifemelu mantém sua independência, princípios e coloca-se acima de qualquer situação. Iniciei a resenha trazendo características de Chimamanda que me despertaram a vontade de lê-la, e enquanto lia Americanah, a personagem Ifemelu me remetia exatamente à própria autora: engraçada, forte e sem rodeios.

Aqui, busquei focar em alguns pontos específicos, principalmente relacionados à questão de gênero, porém, a obra ainda traz temáticas como as situações políticas da Nigéria e dos Estados Unidos, questões raciais e a cultura nigeriana. Dessa forma, Americanah apresenta-se como um livro bastante completo no que se refere a uma leitura agradável, divertida e relevante no diz respeito a questões sociais diversas.

Izabel Soares

Psicóloga e freelancer de cervejaria, 25 anos, mediadora do Leia Mulheres em Irati-PR, onde mora com sua gata Teresa. Gosta de cozinhar, decorar, conversar bebendo cerveja e arrumar treta. Buscando resgatar o lugar da literatura em sua vida.

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