Água Fria e Areia

Por: Michelle Henriques | Em: 29 / julho / 2019

Eu sempre digo que um livro caí nas suas mãos na hora certa, e você o lê na hora mais apropriada. Foi exatamente isso que aconteceu com Água Fria e Areia de Vanessa Vascouto. A Juliana Gomes havia me emprestado o livro na primeira semana do ano e ele estava desde então na minha fila, não por desinteresse, mas pela completa falta de tempo mesmo. Alguns meses depois eu estava em um debate com Cidinha da Silva, Jarid Arraes e Aline Bei, quando vi uma moça se levantar para falar de seu trabalho. Era Vanessa, e reconheci o livro que estava me esperando em meu criado mudo. 

Eu vinha de leituras bastante intensas quando cheguei a Água Fria e Areia, e como sempre, gosto de pegar um livro sem saber nada dele. Sei que é clichê dizer “Mas que grata surpresa”, mas foi exatamente isso. O enredo é aparentemente simples, acompanhamos a história de Caroline e Yannis, ela brasileira, ele francês e seus encontros e desencontros através dos anos. A escrita de Vanessa é tão poderosa que em menos de 100 páginas somos tragados para a história. 

Nas palavras da própria autora, o livro é um desromance, ou seja, não podemos esperar um final feliz. Publicado em 2018, ele é dividido em duas partes, “Água Fria” e “Areia”, que dão título à obra. Caroline e Yannis se conhecem em 1999, às vésperas do bug do milênio, em Lyon. Ele era atendente do albergue em que ela estava hospedada. Yannis é filho de um grego que se dividia entre duas famílias. Três anos após esse breve episódio, eles combinam um reencontro e ele não aparece. Caroline cobra uma resposta, ele disse que tinha um filho, uma família. Ele não queria ser como o pai. 

De volta ao Brasil, Caroline participa de um concurso. A pessoa deveria descrever algo para um francês. O prêmio seria uma viagem para Paris. Ela narra para Yannis o que seria uma visita a Praia do Puruba, em Ubatuba. Em seguida, mais um desencontro. E aqui somos apresentados à Mandy, a esposa dele. Mandy é uma refugiada do Congo, chegou ao país com seus dois irmãos, que são gêmeos. Uma amiga em comum a apresenta para Yannis, que a ajuda com a documentação. 

Mandy e Yannis são um casal que não dá certo. Mas um reencontro dois anos depois lhes dá de presente Zaire, uma gravidez surpresa que lhes une novamente. Uma união vinda de um reencontro de um lado, e uma série de desencontros do outro. Yannis, como dito, não quer ser como o pai, mas não tem controle das situações que vive e de suas próprias atitudes, sempre mantendo contato com Caroline, de uma distância segura. 

Na segunda parte, “Areia”, sabemos que Caroline deu um jeito de entregar a carta descritiva para Yannis. Ela se casou, tem uma vida a dois infeliz. Decide voltar para a França, dessa vez na companhia de sua cachorra Hilda, e sem marido. Yannis leu a carta, foi para Ubatuba, seguiu a risca o destino traçado por ela. E os desencontros continuam. 

Ler este livro me trouxe a sensação de uma reprise do filme Antes do Amanhecer, mas de uma forma infeliz (à sua maneira). É impossível torcer por esse casal, Yannis mentiu, enganou duas mulheres, mas ao mesmo tempo sentimos certa simpatia por ambos. Acompanhamos de coração apertado seus destinos, nessa bela história de amor que não tinha como dar certo. Um livro pequeno, mas potente. 

Água Fria e Areia foi publicado pela Lamparina Luminosa e você pode adquirir o livro pelo site da própria editora clicando aqui

Michelle Henriques

Michelle Henriques é louca dos gatos e trabalha com livros. Ama terror, café, escreve no blog Feminist Horror e no site Cine Varda.

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