Libertê

Por: Ana dos Santos | Em: 7 / junho / 2019

É Libertê mesmo! Neologismo criado por Atena para a palavra liberté da língua francesa. Também não é coincidência o Beauvoir do seu nome. Atena é uma artista criativa que através da sua formação existencialista, pariu a si mesma e ao seu projeto estético-ideológico. E por último, não obstante, “Philosophia” com ph, para demonstrar que o exercício de pensar é antigo, assim como o de questionar o que se pensa.

A capa traz uma pilha de livros demonstrando a ávida leitora que está sempre debruçada nas obras completas dos filósofos. Libertê é dedicado ao companheiro de Simone de Beauvoir, Jean-Paul Charles Aymard Sartre. Acredito que escrever, assim como para Atena, é uma das saídas para não enjoar da “náusea” da existência. E através de um renascimento, podemos ser outros, múltiplos, plenos!

“Seus estudos enfocam a filosofia como base teórica para a tese existencialista do conceito de transantropologia”. É com essa afirmação que Atena nos é apresentada. E a palavra “transantropologia” salta aos olhos. Em nossa mente surgem várias perguntas:

“O que é isso? Transantropologia?”, “O que é antropológico?”, “O que é trans?”. Vamos às definições do dicionário:

antropologia: estudo do homem, sua origem, evolução, cultura, etc.

trans: além de, através de, mudança, deslocamento,…

O que está além do homem? O que vemos através do homem? De que homem estamos falando? Retorno ao dicionário:

– homem: adulto do sexo masculino, raça humana, o ser humano, indivíduo corajoso,      viril, pessoa de confiança de alguém, marido, amante,… Nesse mesmo verbete, temos o feminino de homem, que é “mulher”:

mulher: o ser humano do sexo feminino, esse ser na idade adulta, esposa,…

A poeta responde algumas indagações no prefácio que abre o livro: “Quero dizer que sei de mim e muito pouco do que escrevo. E ao escrever, termino em mim, a saber um pouco do que desconheço.”

Porém, outras indagações surgirão ao longo dos poemas. Partindo de uma filósofa, o eu lírico brinca com as palavras “ser” e “nada”, e nos leva a uma viagem intimista. Atena divide conosco o seu processo de transição. A primeira reflexão que surge é: “Quem somos?” Para logo chegar a outra conclusão: Será que estamos existindo plenamente???

 “… Havia outra em mim,
Agora, liberta
Ele, tornou-se coisa
Para quem o desconhece.
Era ela, agora, repousa,
Pétala singela e asas abertas.”

A noção de construção de identidade é um processo contínuo. Atena não traz certezas, questiona o seu próprio processo e não se vê terminada, pronta. Mas, com certeza, foi na escrita que conseguiu expressar o ser:

“… Quando se quer estar
Respirar, ser,…
E eu, que sou ela,
Descubro sem derramar sangue.
Há em mim, uma lança eterna.”

É no espaço do Nada, que podemos ser Tudo! É no espaço do Nada que se pode construir o Eu. É no espaço do Nada que construímos relações:

“… transbordarei sentimentos nas palavras…
E sabes, que jamais será fadado
Ao fim de ti, ser inoculado
Pois que o nada é retornar eternamente ao existir.”

Atena é imortal, como a deusa do Olimpo. E nos convida a exercitar nossos mergulhos no mistério:

“A liberdade é a distância entre você e seu eu.
Libertê seu ser.
É um breve adeus.” (Atena Beauvoir)

Ana dos Santos

Poetisa, professora de Literatura, especialista em História e Cultura afro-brasileira e contadora de história. Ana é gaúcha de Porto Alegre/RS. Formada em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), participou e venceu concursos de poesia na Universidade e recebeu menção honrosa do prêmio Lila Ripoll na Assembléia Legislativa do RS, escreveu pequenas crônicas no Livro da Tribo (SP) e no livro "Brazil by night" (SP). Venceu o Concurso Ministério da Poesia(World Art Friends) onde publicou o livro "Flor" (Portugal). Está com poemas a Antologia Águia 2009 (AmiGos Unidos Incentivando As Artes), no livro Pretessência - Sopapo Poético (2016), na Antologia ELAS (2017), nas Revistas Gente de Palavra e Poesia Sem Medo. Faz parte do "Catálogo Intelectuais Negras Visíveis" (UFRJ/Editora Malê) - Artista independente, criou o jornal digital "Sociedade dos Poetas Vivos" e colou poemas e muros do Brasil, projeto "As paredes têm ouvidos e sabem do nosso amor". É mãe do Guilherme, seu melhor poema!

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