A Coragem de Ser Imperfeito

Por: Anna Carolina | Em: 10 / junho / 2019

Brené Brown começa seu livro versando a respeito do que chama de Cultura da Escassez, a cultura que experimentamos de nunca ser bom ou ter o bastante. Isso porque passamos um bom tempo calculando quanto temos, quanto não temos, quanto queremos ou poderemos ter. Quando você se conforma e se adequa a um papel, a uma função numa empresa ou pessoal, ainda que não traga o reconhecimento e a valorização que você espera, parece muito mais atraente se conformar, atendendo às expectativas da sociedade, do que partir em busca de novos caminhos. Isso acontece porque encarar a vergonha e a humilhação, enraizadas na comparação, está completamente fora de cogitação. Ou seja, nos esquivamos por completo da vulnerabilidade porque a encaramos como uma total fraqueza.

Isso assim acontece porque a vulnerabilidade está relacionada sobretudo à vergonha, do outro e de nós mesmos. Repare que tentamos de todas as formas nos livrarmos de nosso lado mais sombrio, da nossa escuridão, temendo nos mostrar vulneráveis. O contato com a própria vergonha se torna então fundamental para abraçar a nossa vulnerabilidade. É exatamente esse jeito de conduzir a vida que nos leva ao isolamento, à culpa, à estagnação e a uma total escassez de criatividade e renovação.

Quando nossa autoestima não está em jogo, somos mais aptos a ser corajosos e a correr o risco de mostrar nossos dons e talentos. É a autovalorização que nos inspira a ser vulneráveis, a compartilhar sem medo e a perseverar.  No entanto, vale ressaltar que a autovalorização, como sabemos, é um processo, que, no meu caso, teve muito a ver com  a leitura, sobretudo de autoras negras que refletiram o que por muito tempo eu não soube expressar ou entender.

A autora ainda faz algumas considerações bastante interessantes a respeito da forma como homens e mulheres vivenciam a vergonha de maneiras diferentes. Para nós, mulheres, a vergonha tem muito a ver com a perfeição inalcançável que o patriarcado nos impõe: a perfeição estética, a perfeição na criação dos filhos etc. Então que tal começarmos a revolução por nós mesmas tentando demolir esse muro que nos impede de ver as estrelas?

Isso posto, a autora faz um percurso que nos leva a entender melhor a vulnerabilidade e combater a vergonha, para que possamos reumanizar a educação e o trabalho, além de criar filhos plenos, ousando ser o adulto que desejamos que nossos filhos sejam.

“Viver com ousadia não tem nada a ver com ganhar ou perder. Tem a ver com coragem. Em um mundo onde a escassez e a vergonha dominam e sentir medo tornou-se um hábito, a vulnerabilidade é subversiva. […] E, sem dúvida, desnudar-se emocionalmente significa correr um risco muito maior de ser magoado. Mas, quando faço, uma retrospectiva da minha própria vida e do que viver com ousadia provocou em mim, posso dizer com sinceridade que nada é mais incômodo, perigoso e doloroso do que constatar que estou do lado de fora da minha vida, olhando para ela e imaginando como seria se eu tivesse a coragem de me mostrar e deixar que me vissem.”

O livro A coragem de ser imperfeito chegou em minhas mãos após a conferência TED “O poder da vulnerabilidade”, da autora, Brené Brown, no começo de 2018. Eu vivia um momento de pouca credulidade em mim mesma e de muito medo em relação à vida. Eu havia acabado de me tornar mãe, de retornar ao trabalho, e temia que aquele pequeno mundo com o qual eu estava acostumada (e conformada) ruísse de repente. Se isso acontecesse, eu me tornaria mãe em tempo integral, apenas, e isso me apavorava, porque tinha muito a ver com a forma como os outros me viam e do valor que me atribuíam. Sem esse “valor” eu me sentiria fracassada. Pois bem, o, livro caiu em minhas mãos e teve impacto à época, mas não como o impacto de releitura, que aconteceu ao longo da última semana.

Agora eu vivo o momento que eu tanto temia: perdi meu emprego de uma década. Se isso acontecesse um ano atrás, eu estou mais do que certa de que seria um grande choque, porque meu valor como ser humano estava completamente entregue aos outros, à opinião e à aprovação alheia, ainda que eu mesma não estivesse plenamente satisfeita havia um tempo. No entanto, ao longo desses dois anos de maternidade, eu tenho feito uma série de descobertas a respeito de mim mesma, e elas vão ao encontro de muito do que a autora fala em A coragem de ser imperfeito. Eu passara, assim como a autora, toda a vida tentando contornar e me esquivar da vulnerabilidade…

Anna Carolina

Mãe, fã de livros voraz, preparadora, revisora e editora, aprecia o simbolismo do renascimento da maternidade. Nunca mais foi a mesma depois do nascimento do filho e viciou nessa coisa toda de mudar. Crê no poder transformador da leitura mais do que em si mesma. É mediadora do Leia Mulheres na cidade de Amparo/SP.

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