Tudo o que tenho levo comigo

Por: Sylvia Tamie Anan | Em: 3 / abril / 2019

Herta Müller se consagrou pelas narrativas em que denuncia os horrores do ditador Nicolae Ceauşescu, que governou a Romênia sob o regime stalinista durante quase 25 anos. Em livros como O homem é um grande faisão no mundo: um conto (1986), A raposa já era o caçador (1992) e O Compromisso (1997), encontramos narrativas sobre como se vive em um ambiente de permanente vigilância, de um cotidiano permeado de pequenas coisas que não fazem sentido a não ser que haja algum motivo para a polícia política querer algo de você, de não saber o limite entre a paranoia e a perseguição.

Tudo o que tenho levo comigo (2009), romance que rendeu o Prêmio Nobel à autora, é uma exceção nessa bibliografia. Mas não é um respiro. Acostumada a temas políticos espinhosos, ela se juntou a um conterrâneo, Oskar Pastior, para pesquisar sobre um tabu na sua cidade natal, que fica no distrito de Timis, no extremo oeste da Romênia, cuja capital é Timisoara. No século XII, essa região do país foi colonizada por imigrantes alemães, originários da região da Suábia, no sudoeste da atual Alemanha. Desde então, o alemão permaneceu a língua nativa e a identidade étnica dessa população, e muitos de seus habitantes (assim como muitos descendentes de alemães nativos do Brasil) se juntaram às fileiras do exército nazista, contrariando o governo do país, que apesar de ser uma ditadura fascista ficou do lado dos Aliados – a mesma história que conhecemos no governo brasileiro.

Quando a Guerra de 1939-45 acabou, Stálin determinou que os povos de origem alemã nos territórios ocupados pela União Soviética fossem enviados para a Ucrânia, para trabalhar na reconstrução do país e pagar pelos crimes de guerra. Calcula-se que trinta mil pessoas cumpriram pena, sem processo ou previsão de soltura. Eram campos de trabalhos forçados e, quando puderam voltar para casa, nenhum dos condenados – incluindo a própria mãe de Herta Müller – nunca mais mencionou o assunto.

Oskar Pastor era também um dos trabalhadores condenados e, até poucos anos antes da publicação do romance, colaborou com Müller com suas próprias lembranças e levantando depoimentos de outros sobreviventes. Segundo a autora, o título original em alemão, Atemschaukel, foi sugestão dele e não se sabe muito bem o seu significado, que pode ser uma composição de “Atem”, “respiração”, e “Schaukel”, que designa o movimento de balanço – ou seja, se refere ao fato de que os condenados do campo de trabalho são obrigados a viver para o dia seguinte, sem nenhum tipo de perspectiva. Nesse sentido, o título da tradução para o português transmite, de certa forma, a mesma ideia do original e é a primeira frase do romance.

Em um momento tão permeado de discussões reducionistas sobre o stalinismo e o fascismo, ler Herta Müller pode nos levar de volta ao que realmente importa: que qualquer extremismo político pode fazer de vítima a própria dignidade humana, a sobrevivência da população e sua identidade, que no caso de muitos condenados era o seu único crime. E, em muitos momentos, mostra como o ser humano é capaz de se adaptar às piores condições. O protagonista, Leo Auberg, que encarna ao mesmo tempo os vários sobreviventes que Müller e Pastor entrevistaram, parece com frequência anestesiado e estranhamente conformado à realidade que o cerca – outro perigo que também está mais próximo do que gostamos de imaginar.

Sylvia Tamie Anan

Sylvia Tamie Anan tem mestrado em Teoria Literária, é professora e tradutora. Entre outros, já escreveu o blog O que diria Bandeira - http://oquediriabandeira.wordpress.com

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