Resenha Ilustrada – Um Buraco com Meu Nome

Por: Aldrey Riechel | Em: 18 / março / 2019

Acompanhar o trabalho de autoras independentes significa se envolver com uma história muito antes de ter os livros em mãos. Com o livro de poesias Um Buraco com Meu Nome, de Jarid Arraes foi assim. Quem acompanhou os detalhes de finalização da edição e lançamento foi inevitavelmente contagiado pela ansiedade.

Nesse espaço de uma história nascendo, enquanto outra era contada, pensei em fazer as primeiras ilustrações que não necessariamente dialogam com os poemas publicados ou com este texto.

Jarid por certo é uma autora que conta muitas histórias, muitas delas ainda não estão no papel. Como mulher, negra, nordestina, cordelista, escritora e poeta abriu espaço a marra no mercado editorial. De autora que carregava temas e linguagens desacreditas pelas grandes editoras e mercado editorial passou a autora respeitada e seu livro As Lendas de Dandara, com produção independente foi esgotado em menos de um ano. Hoje é curadora do selo Ferina, pelo qual lançou seu livro.

E Ferina é um selo apropriado para o livro. O que se encontra nas páginas de Um Buraco com Meu Nome é animalesco. Quando for ler se deve tomar cuidado com as garras. Eu mesma sai com diversos arranhões. As garras afiadas podem te ferir quando você menos espera. (Uma mulher é um útero/ que carrega algo/ há dias que gente/ há dias que chumbo).

Dividido em quatro partes: Selvageria, Fera, Corpo Aberto e Cavernas o livro tem uma edição muita cuidadosa. Com pinturas feitas a carvão pela própria autora. Nas primeiras partes você identifica o animal, onde vive e habitat e seus semelhantes. Mas confesso que me chocou encontrar, por muitas vezes, este animal ferido.

Jarid me obrigou a destruir o pedestal criado pela sua história de lutas e conquistas e demonstra que não saiu ilesa. Me comovi diversas vezes ao encontrar esta fera acuada e arisca. Só ao chegar em Cavernas, talvez, você encontre mais conforto e um pote de leite quentinho.

Um Buraco Com Meu Nome te devora, mas diferente da esfinge, não te oferece enigmas. Os poemas são sempre assertivos e, em sua maioria, diretos. É um livro acessível. Caso sobrem dúvidas confie no seu extinto porque um animal reconhece o outro.

 

Aldrey Riechel

Aldrey Riechel é jornalista, ilustradora e escritora. Atua como jornalista ambiental no terceiro setor desde 2008. Integrou a rede OXFAM International Youth Partnerships até 2010. Integrante e idealizadora do coletivo artístico Não-Lugar.

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