Garotas Mortas

Por: Pilar Bu | Em: 29 / março / 2019

Eu queria começar dizendo que conheci Selva Almada muito tarde. E que eu gostaria muito que escritoras latino-americanas, nossas Hermanas, fossem mais traduzidas. Para que possamos ter mais acesso a elas que parecem estar tão perto geograficamente, mas tão longe das nossas estantes. No caso da Selva Almada, ela esteve na Flip 2018 e lançou Garotas Mortas por lá. Que sorte a nossa ter esse livro publicado em português.

Li Garotas Mortas em uma sentada. Mentira, passei o dia inteiro com ele, ou melhor, com elas, degustando devagar cada página, apreciando cada história de cada mulher que essa escritora argentina maravilhosa nos dá o prazer e o desprazer de conhecer.

Garotas Mortas não é um livro fácil de ler, mas é necessário e urgente, que nos rasga, nos atravessa nessa realidade dura, compartilhada, que é a dificuldade de ser mulher em um mundo que nos odeia. O livro trata de feminicídio, mas não só dele, aborda todas as temáticas que vem a reboque com esse crime, que até décadas atrás nem era tipificado como tal. Garotas Mortas é um grito que rompe silêncios. Vou te contar o porquê.

Sabemos, se a gente lê a orelha ou dá aquela pesquisadinha antes, que a obra tem como ponto de partida o assassinato, o feminicídio de três garotas no interior da Argentina na década de 80: Andrea Danne, morta com uma punhalada no coração enquanto dormia; Maria Luisa Quevedo, estuprada, estrangulada e abandonada em um terreno baldio; Sarita Mundim, cujo esqueleto foi encontrado nove meses depois, preso entre os galhos de uma árvore, às margens de um rio. E o que todos esses casos tem em comum? Nunca foram resolvidos. O livro cumpre assim uma tentativa de dar voz a essas mulheres e suas histórias, enquanto se mistura à história de vida da própria autora em sua busca por justiça, em sua tentativa de escavação em busca da verdade.

Selva Almada é incansável, percorre o país procurando pistas, testemunhas, enquanto sua narrativa vai preenchendo as lacunas, contornando as ausências, confrontando a sociedade hipócrita e patriarcal que não apenas ajuda a matar mulheres, mas a silenciá-las mesmo depois de mortas. Na medida em que avançamos nesse quebra-cabeça brutal e aterrador por que real e tão próximo de nós, somos apresentadas a outras personagens reais, mulheres que igualmente desapareceram, foram agredidas, ou assassinadas por aqueles que deveriam ser seus maiores protetores e lhes dar carinho e amor.

Temáticas como a exploração dos corpos femininos; pobreza; prostituição; as múltiplas formas de violência contra a mulher como a física, a simbólica e a material; a sociedade patriarcal como uma máquina de moer mulheres; a hipocrisia e a impunidade no tratamento de casos de feminício; o silêncio dos arquivos, está tudo ali. Selva Almada deflagra, denuncia, coloca o dedo na ferida, sem rodeios, de maneira crua, talvez por isso seja tão doloroso. Nunca é fácil encarar aquilo que dói, é como se materializasse nossos medos, aquilo que se levanta contra nós. E é justamente por isso que a leitura é tão importante, tão urgente e tão necessária.

Eu me senti dolorosamente contemplada por Garotas Mortas, mas duvido que alguma de nós não se sinta. E como é bom botar pra fora, ver que alguém materializou nossas dores, colocou no centro do debate essas violências.

São Lilianas, Martas, Andreas, Maria Luisas, Saritas, Mirtas, Betys, Rosas, Mairas, Eu, Você, que não podemos mais ser esquecidas. Mulheres que não podem mais ser arrastadas pela lama, jogadas embaixo do tapete da história em nome de uma paz social que nos mata e nos violenta. Garotas Mortas é a necessidade de dizer, de colocar em foco a violência para que ela não se repita. Selva Almada nos convida à reflexão, à indignação, à ação que mobiliza, que reivindica um outro tipo de sociedade, longe da violência e do feminicídio. Eu convido então vocês à leitura e à luta por um mundo que não odeie e não nos agrida mais.

 

Pilar Bu

Pilar Bu é vampira, leoa e mãe felina de 4 gatos. Poeta, já foi publicada em diversas revistas eletrônicas e coletâneas, seu primeiro livro, Ultraviolenta, foi lançado em 2017 pela Kotter Editorial. É uma das fundadoras ex-integrante do coletivo minaescriba, também fundou e mediou o Leia Mulheres Goiânia, além de ser uma das organizadoras do festival literário [Eu sou poeta]. Doutoranda em Teoria e História Literárias pela Unicamp, Mestra em Estudos Literários pela UFG, é obcecada por literatura como modo de vida e experiência. Atua como professora de escrita criativa, literatura e crítica literária, trabalha também com revisão de textos, redação e produção de conteúdo. Escrever é sua grande paixão.

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