Madalena, Alice

Por: Juliana Gomes | Em: 6 / dezembro / 2018

“Aceitei cada um dos teus fantasmas, mãe. Entendi que a vida da Eugênia, da tia Maria Lúcia, da Quitéria era o que dava sentido à tua própria vida. Você tinha que perpetuá-las em teu delírio como eu deveria fazer o mesmo em nomes de todas nós.” pág. 21

Num conversa informal com uma amiga, ela me propôs a leitura de um livro. A temática era próxima de algo que eu estava passando e poderia ser bacana encontrar uma leitura com histórias similares. O livro não foi comprado por motivos pelos quais não me lembro, poderia ser a falta de grana ou a dificuldade de enfrentar o problema e encará-lo como tal. Até que a autora me mandou mensagem pelo Facebook, por causa do Leia Mulheres e adoraria que lêssemos sua história quase autobiográfica. Pensei comigo “Conheço tanto esse tipo de história…”. Pedi o livro e li em dois dias, porque no primeiro dia tive uma crise de choro no ônibus.

Madalena, Alice de Bia Barros é um livro que tem duas versões da mesma história. Alice é a filha que cuida da mãe Madalena com doença de Alzheimer. Madalena é a mãe até então ativa e independente que se vê nas mãos da filha e idealiza um filho que foi cuidar da própria vida e não a incluiu. O livro foi escrito pela própria da escritora.

O livro é dividido em duas partes, comece a ler por Madalena, a mãe, porque ela vai te colocar melhor na história. Alice, a filha, dará a tacada final em certos acontecimentos. Madalena começou a definhar aos poucos, Alice precisou cuidar da mãe e se perdeu no caminho. O que se nota na narrativa é que a doença não só afeta a mãe, mas torna a filha doente, a chamada síndrome do cuidador. É um sentimento claustrofóbico em que não há cura para o doente e onde se percebe que a culpa recai sobre a filha solteira. Com o passar desse tempo, Alice perde o emprego e encontra o inferno.

Madalena chama as irmãs e acha que aquela mulher que está com ela na casa é uma intrusa. A agressividade de Madalena é como a de um animal aprisionado, um ser que fica sem história devido à doença. As pessoas próximas somem, o amor parece não existir. No passado, a costureira Madalena foi abandonada pelo marido e com a doença essas histórias voltam. A vida agora acontece no passado e ela leva junto sua filha Alice.

A filha se perde na loucura de ter que cuidar de outra vida e se envolve em situações estranhas, como uma fuga. Locais escuros, homens mórbidos. Alice já não sabe quem é, já não sabe o que fará. A mulher que o irmão largou com a mãe sem ajuda. A mulher que se deixou envolver pela culpa.

Esse livro mexeu demais comigo. Minha avó tem Alzheimer e durante muito tempo deixei minha mãe sozinha no processo lidando com os fantasmas. Em meio à religiosidade, esse processo de não-cura nos aprisiona. Madalena, Alice é um livro sobre amor, mas principalmente sobre cuidado, com o outro e com nós mesmos. Para mim, foi uma leitura sobre perdão. 

“E sabe o que eu fui fazer, mãinha? Fui dar! Isso mesmo. Eu dei! Dei bastante, como a mais puta das putas. Pra me lembrar que ainda sou mulher. Foda-se o seu moralismo. Foda-se a sua religião. Foda-se a sua filhinha perfeita. Eu sou uma mulher. Fêmea que não fica esperando o homem que nunca vem. Fêmea que não precisa da ajuda de um escroto e de um filho ladrão. Vou morrer sozinha. Mas, pelo menos, eu antes matei todos os meus fantasmas.” pág. 19

Juliana Gomes

Livreira, consultora comercial e marketing em livrarias e editoras. Exercita sua veia digital na Kontakt.

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