Entrevista com o Vampiro

Por: Michelle Henriques | Em: 17 / dezembro / 2018

“O mal é sempre possível. E a bondade é eternamente difícil.” pág. 20

Eu sempre tive para mim que gostar de terror é aceitar o que está ali. É normal uma menina girar a cabeça 360º, é normal uma criança fazer a babá se enforcar, é normal uma mulher transar com uma criatura de outro planeta. A gente aceita tudo e segue em frente.

Eis que eu, aos 31 anos, decido reler Entrevista com o Vampiro da Anne Rice (minha edição com tradução da Clarice Lispector). O filme, com certeza, foi um dos que mais vi na vida. Tanto que para mim, Lestat é Tom Cruise, Louis é Brad Pitt. E como fazer essa releitura sem ficar problematizando e aceitar todas as bizarrices? Logo no começo da leitura encontrei um trecho em que Louis fala de seus coração que bate. Mas ele não tinha falado, poucas páginas antes, da morte de seu corpo? Mas tudo bem, vamos adiante.

O título entrega o enredo: um jovem conhece um vampiro num bar e acaba por entrevistá-lo. No começo ele tem medo, mas a curiosidade lhe dá a segurança que ele precisa e assim começa a gravar, com um bom estoque de fitas K7. Louis conta sua história desde antes do fatídico encontro com Lestat, seu mestre, aquele que o transformou em vampiro. A cena da sua transformação é uma das mais bem escritas que já li no gênero. Impossível não me lembrar do filme, de Louis vendo o mundo pela primeira vez com seus novos olhos de vampiro.

Louis não é um vampiro comum: ele não gosta de matar humanos. Ele prefere se alimentar de animais. Para Lestat isso é ridículo. Lestat é vaidoso, prepotente e sabemos um pouco de sua relação difícil com o pai. Há uma breve explicação sobre o porquê dele ser assim. Não cola muito, mas ainda seguimos na premissa do “Ok, vamos adiante”.

A vida deles discorre em Nova Orleans. Ambos moram na fazenda de Louis, com escravos que começam a desconfiar da vida estranha que eles levam. Há uma mulher mortal por quem Louis se apaixona e passa a aconselhá-la, como se fosse um anjo. Após alguns acontecimentos, eles saem do local. Na cidade grande, Louis ouve o choro de uma criança que está agarrada ao corpo da mãe. Ele não se contém e se alimenta dela.

Claro que Lestat não deixaria isso barato. Louis se recusa a se alimentar de humanos e acaba atacando logo uma criança? Lestat a transforma numa vampira. Assim nasce Cláudia, a vampira de cinco anos. Bizarro, não é mesmo? Relendo agora vejo o quão problemático é o enredo e o que cerca essa família. Lestat e Louis claramente vivem um relacionamento abusivo, e as descrições quase eróticas que Louis faz de Cláudia são bizarras e nojentas.

Seguindo adiante, Cláudia e Louis se cansam do comportamento mimado e tirano de Lestat. Ambos querem saber mais de suas origens, querem saber se há mais vampiros pelo mundo. Cláudia está envelhecendo no corpo de uma criança, ela agora é uma mulher adulta, que não quer mais viver entre bonecas. Ela quer mais. Assim, ela bola um plano para assassinar Lestat. Vampiros são imortais, pero no mucho.

Cláudia e Louis partem para a Europa, em busca de suas origens. Encontram alguns vampiros decrépitos, que em nada se assemelhavam a eles. Até chegarem à França, onde encontrar reais vampiros, refinados como eles, que possuem uma companhia de teatro. Louis encontra um novo amor, Armand, quer ficar com ele, mas se sente preso à Cláudia. E assim as coisas desenrolam.

Gosto bastante da discussão religiosa que Anne Rice traz. Louis tem uma forte ligação com Deus. Seu irmão era bastante religioso e teve uma morte trágica, pela qual Louis se culpava. Ao longo do livro ele sempre questiona a existência de Deus, o porquê de sua própria existência. Em determinada passagem ele se encontra dentro de uma igreja e conclui que Deus não vivia ali, ele era o único elemento sobrenatural ali presente.

Lestat se considera divino, assim como Deus, ele também mata indiscriminadamente. Logo, nenhuma criatura se pareceria tanto com Deus como o vampiro. Quase no fim do livro, o assunto retorna entre Louis e Armand. Louis questiona se eles são filhos de Satã. Armand responde: “Se você acredita que Deus criou Satã, deve compreender que todos os poderes de Satã provém de Deus, que Satã é simplesmente filho de Deus, e que nós também o somos. Na verdade, não há filhos de Satã.”

Muitos livros de vampiros focam na questão do lesbianismo, há uma infinidade de adaptações para o cinema com vampiras sensuais. Aqui Anne Rice distorce tudo, são vampiros homens, bi ou homossexuais. E não há um foco muito grande nessas questões, claro, há o romance e a sedução, mas de forma muito sutil.

A narrativa é bastante fluída e segue em ordem cronológica. O foco fica em séculos passados, há uma rápida pincelada no tempo presente (pensando nos anos 70, época em que o livro foi publicado) e é preciso reconhecer a importância de Anne Rice para o renascimento do gênero. Não me lembro de tantos autores falando sobre vampiros nos anos 80/90, principalmente aqui no Brasil. Mesmo com toda as problematizações que fiz, foi uma delícia reler esse livro e já está nos meus planos continuar a série.

Michelle Henriques

Michelle Henriques é balzaquiana e formada em Letras. Louca dos gatos e dos livros, escreve no blog Feminist Horror e participa do podcast Feito por Elas.

Veja outros posts de Michelle Henriques