Amor Amargo

Por: Graciela Paciência | Em: 16 / dezembro / 2018

É difícil percebermos que estamos em um relacionamento abusivo. É ainda mais difícil admitir para nós mesmas ou para outras pessoas. O amor é um sentimento tão complexo que faz uma vítima sentir vergonha por algo provocado por OUTRA pessoa, a qual deveria, sim, sentir vergonha por não saber tratar com respeito o sentimento do próximo. Amor Amargo, da escritora Jennifer Brown, mostra uma adolescente que nem percebe seu mergulho de cabeça em um relacionamento destrutivo.

Alex é uma adolescente que lida diariamente com o sentimento de solidão, apesar de ter amigos próximos, Bethany e Zach. Sua mãe morreu quando a jovem ainda era pequena e, na ocasião, ela estava a caminho do Colorado. O que a mãe esperava encontrar lá é um mistério para Alex e suas irmãs, e isso faz a adolescente planejar uma viagem até o estado, ao lado dos amigos, logo após a formatura do ensino médio. O pai nunca superou o luto e se mostra uma pessoa distante.

Quando ela conhece Cole, tudo muda. Ele é bonito, tem um certo ar de mistério e está disposto a dar a Alex toda a atenção que ela merece, mas isso tudo vai custar muito caro, afinal o que ele pode exigir da garota em troca de tudo isso?

Aos poucos, Cole se mostra um garoto manipulador, grosseiro e que não respeita em nada as decisões da namorada. É com pequenas atitudes que uma pessoa abusiva vai tomando todo o espaço do próximo, sem deixar que a vítima respire por si mesma. Isso acontece todos os dias, em todas as partes do mundo, porém, o modo com que enxergamos relacionamentos, declarações de amor e cavalheirismo pode nos confundir e dificultar a percepção de que estamos nos relacionando com uma pessoa possessiva.

Não dar espaço para ver os amigos, se apropriar sem autorização de todas as experiências que seriam suas e de mais ninguém e tentar se mostrar a única pessoa que te entende e que merece a sua atenção são algumas das atitudes que uma pessoa abusiva apresenta.

Ninguém chega com um cartão de visitas dizendo que pra vocês se relacionarem, sacrifícios terão que ser feitos (somente de sua parte). O que acontece é o seguinte: há a sedução, a pessoa se mostra alguém admirável, atenciosa e sensata. Mas quando te conquista, ela acha isso lhe dá o direito de se tornar o centro da sua existência. Sabe aquele papo “Você combinou de sair com os seus amigos? Poxa, mas seria tão bom a gente ficar junto hoje…”. FUJA!

Porque um dos problemas é que a gente cresce achando que relacionamentos abusivos só se revelam depois de muito tempo de namoro ou casamento, inclusive com pessoas que dependem do abusador. Isso está muito errado e acaba com as nossas chances de alertar os mais novos de que pode acontecer com qualquer pessoa.

A narrativa de Jennifer Brown (que ficou famosa no meio literário com A Lista Negra) nos permite perceber, sem exageros e sem romantização, como este comportamento é presente também entre os adolescentes. A mudança de tratamento oferecida pela pessoa abusiva é constante. Hoje ela deixa claro que tal atitude a deixa brava e, a partir de então, a vítima muda, aos poucos, o seu jeito de ser, de se relacionar com amigos e a família, tudo para não irritar quem pode lhe bater por nada.

A romantização dos relacionamentos também contribui para que a vítima se cale, pois, teoricamente, tem coisas que dizem respeito somente ao casal (sim, desde que não sejam atitudes que machucam um dos envolvidos) e sempre foi exigido, principalmente da mulher, o papel de perdoar e aceitar que para o relacionamento dar certo tem que fazer sacrifícios e insistir.

Você consegue perceber o quão tóxica é essa atitude e o perigo que ela representa? Aos poucos, o que aprendemos, desde pequenas, é aceitar as “adversidades” do namoro, o que pode evoluir para um casamento onde somente uma pessoa aceita tudo.

Eu poderia ter sido uma Alex na minha adolescência, tenho certeza de que muitas de vocês também. É isso que torna a leitura de Amor Amargo tão essencial. Enquanto torcemos pela felicidade de Alex, a garota aceita absurdos e não consegue enxergar o perigo dessa relação.

Publicado pela editora Gutenberg, com a tradução de Guilherme E. Meyer, Amor Amargo é a história que devemos apresentar aos mais novos e também aos mais velhos.

Graciela Paciência

Graciela Paciência gosta de videoclipes desde pequena, pois é a junção de duas outras artes pelas quais é apaixonada: cinema e música. Mas não para por aí, os livros também ocupam boa parte de seu coração. Entre os livros da Agatha Christie e Jojo Moyes, ela explora livros de terror, suspense, dramas adolescentes e tudo o que parece ser interessante. Tem mais livros do que consegue ler, mas nunca desiste.

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