A mãe de todas as perguntas

Por: Patricia Lorena | Em: 3 / dezembro / 2018

Rebecca Solnit é mulher, jornalista, escritora e historiadora americana. Escreve sobre política, artes, ambiente, história indígena, história ocidental e feminismos, o que hoje em dia dá mais voz a sua literatura. Entre os seus títulos está Os homens explicam tudo para mim, que traz à tona o termo mansplaining, que é a referencia ao silenciamento promovido pelo homem, que  interrompe a mulher para explicar, didaticamente, o que ela está dizendo, como se a este coubesse saber tudo ou mais e melhor.

No livro A mãe de todas as perguntas, Solnit traz 12 ensaios, fala de várias questões sobre mulheres, mas há algo que acaba perpassando quase todos: o silencio a que somos submetidas, seja o silêncio no casamento, nas relações sociais e de trabalho, na literatura. Silêncios. Estar em silêncio é bem diferente de ser silenciada, impedida de fala.

No capítulo de abertura: A mãe de todas as perguntas – inquietações sobre a maternidade. Quem nunca, beirando os trinta, ou antes, foi questionada sobre ter filhos? Lembro de casa, quando eu dizia que nunca teria filhos e tive, o que mudou minha ótica sobre a questão e sobre o mundo, e de minha irmã que criança dizia que seria mãe solteira e que desistiu do projeto. Lembro ainda de mamãe que passou a vida toda repetindo: “Se pudesse recomeçar, filhos não pegariam uma letra”. Uma frase com signos inúmeros. Ouvir isso na infância e adolescência remete a algo negativo e triste, como se houvesse uma repulsa da parte dela. Hoje, a interpretação muda. Entendo muito o fato de dizer isso com tanta convicção. Minha mãe casou aos 22, teve dois filhos que não ‘vingaram’. Aos 29, com um casamento que só favorecia ao meu pai, anularia a sua vida e personalidade de todas as formas, ela resolve ter filhos. Seria uma forma de não estar mais sozinha. Assim, a dedicação a nós duas a anulou mais ainda como mulher, a partir dali ela só seria mãe. Morte em vida. Sacrifício e negação de si mesma.

Voltando ao livro, a partir de uma palestra sobre Virginia Woolf, Rebecca fora questionada porque aquela autora não teria tido filhos. Essa questão aparentemente ingênua, já que filhos são fofos, carrega como signo a ideia de que todas as mulheres têm de ser mães ou que essa é quase exclusiva função feminina: reproduzir. Com um humor que beira a ironia (comungo com ela nisso) ela trata a questão, afirmando que ela própria não teve filhos, por inúmeros motivos: como ser muito boa com o uso de concepcionais, gostar de solidão e ter sido criada por gente bruta e infeliz e não querer reproduzir essa forma de criação.

Também traz inquietações sobre a heteronormatividade, reforçada pelo mainstream, discurso dominante justificador do patriarcado e de seu poder, manifestados na arte,  cultura e literatura. Para dar luz às suas ideias, ela traz Lolita, em que ilustra a linguagem como poder e como categoria excludente. Mas apesar de tantas evidências em torno do achatamento e invisibilidade da mulher, uma luz se acende, quando ela traz os novos feminismos, que coloca na roda de debate a violência contra a mulher enquanto questão pública, e ressalta a presença de voz masculina nesse movimento.

Uma ressalva importante, a partir da obra conseguimos perceber a minorização do papel da mulher na história. Há uma separação, um anonimato latente, que induz que a discriminação ocorra quase como punição coletiva. Enfim, é um livro grande, forte e preciso. São inúmeras as nuances abordadas e maiores ainda as provocações levantadas. Vale a pena ler. 

Patricia Lorena

Mulher – menina de 45 anos, mãe – filha, viciada em livros, gatos, café e poesia. Renasce a cada livro e pensa que mora nas esquinas da poesia que lê.

Veja outros posts de Patricia Lorena