Nossa Senhora do Nilo

Por: Pilar Bu | Em: 24 / outubro / 2018

Eu já namorava os livros da Scholastique Mukasonga há um tempo, mas a verdade é que com tanto prazo na vida acadêmica fica difícil se organizar para ler coisas que transbordam ao que pede a pesquisa. Nossa Senhora do Nilo, de Scholastique Mukasonga, ainda bem, foi me pedido em uma matéria sobre memória e genocídio, esse ano. E eu vou dizer uma coisa: essa mulher muda a vida de quem a lê.

Mukasonga, como carinhosamente chamarei ela daqui pra frente, é uma sobrevivente de múltiplas violências que acometeram seu país e culminaram com um genocídio em 1994 (e disso ela trata com muito cuidado e maestria em outro livro seu, Baratas). Sua obra é entrecortada pelas questões da memória, da violência, numa tentativa de sobrevivência e reelaboração do trauma e do luto que foi ver os seus serem dizimados.

Em Nossa Senhora do Nilo a autora nos traz um romance primoroso, doloroso, mas extremamente importante a respeito da condição feminina em um país marcado por disputas étnico-raciais. O liceu homônimo ao livro é inspirado em uma escola que a autora estudou Nossa Senhora de Cîteaux. Ali as disputas ideológicas e culturais transformavam a vida das alunas cotistas Tutsis num verdadeiro inferno pelas práticas excludentes e violentas de suas colegas Hutus.

Entretanto, o que mais me interessa pontuar nessa resenha é como essa instituição de ensino, que simboliza a cultura europeia, foi capaz de oprimir e controlar os corpos dessas meninas ruandesas e como elas, por sua vez, tentaram de todas as formas resistir às investidas do colonizador.

Preparadas para serem a elite do país, aquelas que se casariam com os homens mais importantes, chefes de estado inclusive internacionais, essas meninas tinham seus corpos oferecidos em barganha, como moeda de troca para a vida em sociedade. Suas famílias investiam pesado em sua educação não para a emancipação de suas vozes, mas para a perpetuação de contradições e diferenças raciais impostas pela Europa e pela sociedade compulsória.

Tabus como virgindade, casamento compulsório, diferenças étnico-raciais, disciplinarização e controle do corpo feminino são algumas temáticas que Mukasonga aborda para tentar mostrar ao leitor um universo excludente, violento, que não deve jamais ser resgatado ou voltar a acontecer.

Do Padre Pedófilo às irmãs condescendentes, a estrutura de ensino procurava renunciar as origens ruandesas, como a língua e o nome, além de compactuar com a violência, o desamparo e o despertencimento experimentado pelas alunas. Nossa Senhora do Nilo mostra o liceu como um reflexo de um país arrasado pela divergências étnico-raciais estimuladas pela Europa, por países que tinham muito a ganhar com fragmentação do Ruanda e da África.

Ainda que trate de disputas e de práticas violentas, o livro sinaliza uma possibilidade de afeto entre mulheres, entre meninas em gestação de ser mulheres, quando vislumbra a possibilidade de amizade entre as etnias em meio ao caos. É uma crítica contundente às relações e estruturas patriarcais que subalternizam os corpos femininos em detrimento da colonização e de manutenção de privilégios sociais vigentes.

Mukasonga, com maestria, nos convida a mergulhar num Ruanda que desconhecemos, pois não foi amplamente divulgado e visibilizado pela mídia internacional. Ela retira o véu do silêncio, abre os arquivos da história para deslocar o olhar do leitor de uma visão eurocentrada e higienista e honrar os seus. Ao contar a história que se procurou apagar, Mukasonga dá voz e é cripta, receptáculo, pode finalmente dar um túmulo de papel para aqueles que não tiveram a dignidade respeitada nem na hora da morte. Eu sou completamente apaixonada por Mukasonga, por sua jornada incrível para honrar os seus e nos mostrar a verdade. Acho a leitura de todos os seus livros um convite para libertar o olhar.

Pilar Bu

Pilar Bu é vampira, leoa e mãe felina de 4 gatos. Poeta, já foi publicada em diversas revistas eletrônicas e coletâneas, seu primeiro livro, Ultraviolenta, foi lançado em 2017 pela Kotter Editorial. É uma das fundadoras ex-integrante do coletivo minaescriba, também fundou e mediou o Leia Mulheres Goiânia, além de ser uma das organizadoras do festival literário [Eu sou poeta]. Doutoranda em Teoria e História Literárias pela Unicamp, Mestra em Estudos Literários pela UFG, é obcecada por literatura como modo de vida e experiência. Atua como professora de escrita criativa, literatura e crítica literária, trabalha também com revisão de textos, redação e produção de conteúdo. Escrever é sua grande paixão.

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