Negra Soul

Por: Ana dos Santos | Em: 24 / setembro / 2018

“Negra/ Palavra/ Bendita/ Que saiu/ De tua boca…”

 A poesia é um gênero literário que vem ganhando destaque nos últimos anos devido ao seu caráter mais “econômico” como revelou a poeta afro-americana Audre Lorde, econômico no sentido de “… requerer menos trabalho físico, menos materiais e a que pode ser feita entre turnos…”. Trago aqui essa fala para poder justificar também o aumento dos saraus onde a poesia vem retomando o seu lugar de origem: a fala, a oralidade. E onde estão surgindo novos  poetas atraídos pelo microfone aberto.

O segundo livro de poemas de Lilian Rose Marques da Rocha, mais conhecida como Lilian Rocha, vem sintetizar esse movimento poético com as tintas dominantes desse novo cenário: feminino e negro. Esse protagonismo despontou como uma necessidade de se preencher as lacunas da literatura brasileira, espaço que, segundo pesquisas científicas, é um cenário dominado pelo homem branco. Não foi somente uma necessidade de expressão, porque essa sempre está presente nas almas artísticas, mas a necessidade da mulher negra ser lida, escutada e reconhecida. A necessidade de ser visível, pois o machismo e o racismo vêm escondendo por séculos, nossas escritoras e principalmente, as escritoras negras.

A capa de Negra Soul traz estampada a imagem do rosto da nossa poeta, desenhado pelo artista visual Paulo Correa. A leitura do livro começa por aí, leitor. Lilian está com o microfone em punho e sua boca está nos dizendo algo: “Negra Soul”. Eu sou negra, “Negra Soul”! Minha alma é “Negra Soul”! E não é apenas um trocadilho com o gênero musical “Soul”, que nasceu do rhythm and blues e do gospel afro-americano e da palavra “soul” que significa alma em inglês. Lilian tem uma voz especial que encanta a todos que a escutam dizer seus poemas e que tocam fundo a nossa alma.

O poema título, “Negra Soul” fala sobre ser uma mulher negra no sul do Brasil. Estado particularmente racista, que insiste em “apagar” a cultura negra que está presente em tudo no país. Lilian traz em seus poemas a força da ancestralidade africana que reverbera na musicalidade do tambor, mais precisamente o tambor afro-gaúcho, o sopapo. Foi no coletivo de poesia negra “Sopapo Poético” que Lilian se destacou por sua voz e sua presença, que junto com seus poemas, performam toda uma sabedoria, filosofia e luta antirracista da mulher negra. Não basta ler Lilian Rocha, é preciso assisti-la:

“Pixaim

…Quem tem medo do meu cabelo pixaim?/ Assim, assim/ Também deve ter medo/ Do meu falar alto,/ Do suingue do meu corpo,/ Da minha ancestralidade…”

Mas Lilian não escreve apenas sobre a identidade negra, tema que está presente no seu primeiro livro: A Vida Pulsa- poesias e reflexões. Lilian é uma poeta sensível ao cotidiano e à nossa sociedade. Assim como expressa uma busca espiritual que se reflete na exaltação da vida em seus poemas:

“O olhar

Ventre/ Pulsação/ Da vida/ Marcado/ No ritmo/ Da existência/ Luta/ Branda/ Pelo ecoar/ Faminto/ Do grito/ Da sobrevivência/ Humana.

Nascemos/ Choramos/ Ou não… / Mamamos/ Porém/ Ainda falta/ O olhar/ A poética/ Do encontro/ No qual me reconheço/ E esqueço tudo mais.

Agora sim/ Olho-te/ E te vejo/ Em mim/ Ah, que alívio… Mãe!”

Muitos poemas revelam a mudança do lugar da mulher na sociedade brasileira, que vem ocupando espaços até então restritos aos homens e que vem invertendo os padrões e papéis destinados pelo patriarcalismo:

“Lilith

Quando Adão sussurrava/ Abriam-se as portas do paraíso/ Quando Lilith gemia de prazer/ Não foi sequer chamada de pecadora/ Foi eliminada da história./ Hoje, exibes o teu falo/ Em nome da honra/ E por mais que mil Marias da Penha/ Gritem de dor/ Haverá uma costela no meio do caminho/ Impondo o seu direito à propriedade./ Não queremos mais Evas!/ Liliths ressurjam das cinzas/ E entoem o hino/ do pulsar prazeroso da Vida.”

Na busca pela escuta atenta de sua poesia, Lilian começou a participar dos Slams, batalhas de poesia nas ruas, com espaço para dizer versos livres. O Slam é o palco da poesia oral mais acessível e democrático que existe. Os jovens poetas do centro e da periferia, assistem em silêncio e reverência a poesia contemporânea, que Lilian Rocha sintetiza tão bem:

“Golpes Sórdidos

No cair da noite/ Ratos comungam/ Golpes sórdidos/ Migalhas aos pobres…/ Ironia e hipocrisia/ Da história mal contada/ E deglutida em soluços/ Por uma maioria maltrapilha,/ Surrada e abatida/ Enquanto belas e recatadas/ Dormem em seus lençóis de seda/ Subalternas vices/ Da meritocracia brasileira.”

Negra Soul é um livro para ser lido e sentido com a alma. Se você prestar atenção, escutará um coração ressoando! É Victória Santa Cruz, poetisa negra peruana que gritou em alto bravo o poema: “Gritaram-me Negra!” e Lilian Rocha respondeu: “Negra Soul!”

Ana dos Santos

Poetisa, professora de Literatura, especialista em História e Cultura afro-brasileira e contadora de história. Ana é gaúcha de Porto Alegre/RS. Formada em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), participou e venceu concursos de poesia na Universidade e recebeu menção honrosa do prêmio Lila Ripoll na Assembléia Legislativa do RS, escreveu pequenas crônicas no Livro da Tribo (SP) e no livro "Brazil by night" (SP). Venceu o Concurso Ministério da Poesia(World Art Friends) onde publicou o livro "Flor" (Portugal). Está com poemas a Antologia Águia 2009 (AmiGos Unidos Incentivando As Artes), no livro Pretessência - Sopapo Poético (2016), na Antologia ELAS (2017), nas Revistas Gente de Palavra e Poesia Sem Medo. Faz parte do "Catálogo Intelectuais Negras Visíveis" (UFRJ/Editora Malê) - Artista independente, criou o jornal digital "Sociedade dos Poetas Vivos" e colou poemas e muros do Brasil, projeto "As paredes têm ouvidos e sabem do nosso amor". É mãe do Guilherme, seu melhor poema!

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