Só Garotos

Por: Patricia Lorena | Em: 30 / agosto / 2018

A conexão com os grupos do Leia Mulheres espalhados pelo país me trouxe a esse título. Fui atraída de imediato pela foto de capa, que remete a uma juventude revolucionária e libertária, também chamada de hippie, punk, vivida nos áureos anos de 60/70. Depois, a similitude do nome da autora, não basta ser Patrícia, tem de ser chamada de Patti. Por fim a ligação transcendental entre Patti e a poesia – redundância – e entre ela e Robert. Só Garotos é um livro biográfico, escrito com um movimento e uma força incomuns. Ao tempo que é denso, é leve, e traz luz.  Está dividido em cinco capítulos que vou tentar sintetizar.

Patricia Lee Smith, americana, nascida em uma família de poucas posses, tem um pai com quem ela gosta de conversar e com quem muito aprende. Também tem duas irmãs e um irmão, e uma mãe que trabalha fora e não poupa dedicação aos filhos e família, que os ensinou brincadeiras de infância e também a rezar. Patti teve que trabalhar ainda adolescente em uma fábrica, época em que se descobre grávida, entregando seu filho para adoção e entendendo que ela era maior que a vida que a cidade pequena lhe oferecia. Resolveu partir.  

Essa e outras cenas estão relatadas na primeira parte, “Filhos da Segunda-Feira”, em que ela apresenta a si e ao seu companheiro de vida, Robert Mapplethorpe, que nasceu, também, em uma segunda-feira, de um ano outro. Patti durante toda a vida se mostra uma mulher decidida e forte, fora dos padrões. Questionadora, observadora, sensível, inquieta. Essas características acompanharão a autora por toda a vida.

Uma das passagens mais lindas dessa parte do livro é a dedicação de Patti a uma amiga um pouco mais velha que tem leucemia. Ela todos os dias a visita, conta histórias e faz companhia. Há algo além da solidariedade que permeia a relação: a curiosidade de seus olhos desbravando aquele universo tão cheio de cor e brinquedos, que vez por outra ela se pega levando pra casa.

Só Garotos, título do livro e do segundo capítulo, traz o encontro de Patti e Robert, quando eram só garotos sonhadores e fugidios de uma realidade engessada e previsível. Ela, foge da cidade pequena, da possibilidade de acabar garçonete como a mãe. Ele, da vida reta, da família nucleada e do papel social que está predeterminado pra ele.

O encontro foi casual e também providencial, depois dali não se desgrudaram. Tinham apenas um ao outro, a arte ainda escondida de cada um e a vontade de ser. Tinham pouco dinheiro e durante toda a vida carregaram pouca bagagem, que ia se dispersando, diluindo ao ritmo de tantas mudanças de endereço. Se esvaziavam e se enchiam o tempo todo.

O terceiro capítulo: “Hotel Chelsea”, que é aonde vão se fixar depois de tantas idas e vindas. O hotel é endereço de muitos artistas, conhecidos e não conhecidos. É um portal para o mundo artístico, e é desse portal que surgem encontros com Andy Warhol, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Bob Dylan, entre outros. É a partir daqui que Patti e Robert começam a se deter mais as suas artes. Ela e suas poesias, que depois serão musicadas; e ele, com suas assemblages ou colagens para a fotografia.

Robert tinha pouco dinheiro, Patti sempre trabalhou e ajudou a financiar seus sonhos. Era incrível como eles confiavam no talento um do outro. Mas o fato de ter pouco dinheiro vai incomodar Robert e durante um tempo ele se torna michê, o que o leva aos poucos a descobrir-se sexualmente. Robert era homossexual e sempre relutou contra sua natureza, talvez por ter sido criado em um lar extremamente católico, tendo sido até coroinha. Essa descoberta o aproxima de alguns amores, mas nunca o afasta de Patti, que aceita com naturalidade sua decisão. Ela também terá amores. Eles não tinham uma relação conjugal, o que os unia era transcendental, era alquímico e mágico, eles sempre se mantiveram juntos.

No quinto capítulo estão “Juntos em Caminhos Separados”. Patti vai para um apartamento e Robert segue para um loft, que também é atelier, financiado por Samuel Gastaf, ou Sam, com quem vivera até os últimos dias de vida.

O sexto e último capítulo é o mais lindo, é o arremate dessa história aqui nesse plano terreno, mas que continua no plano espiritual. Robert adoece em consequência da AIDS, e dá para imaginar o desfecho dessa história pensando no contexto das décadas de 70 e 80. Sam também tem o vírus e padece. Patti, casa, tem um filho e está grávida do segundo, segue sua carreira. Mas o contato com Robert é estreito e a relação segue viva. É Robert que faz a capa de seu disco, ele já muito debilitado e ela extremamente solícita a sua condição. Eles passarão mais tempo juntos fisicamente. O elo é incrível e a conexão entre eles os liga a algo maior, não a toa ela intitula o capítulo: “De mãos dadas com Deus”. E arremata essa história com uma carta linda. Uma leitura que vale muito a pena.

Patricia Lorena

Mulher – menina de 45 anos, mãe – filha, viciada em livros, gatos, café e poesia. Renasce a cada livro e pensa que mora nas esquinas da poesia que lê.

Veja outros posts de Patricia Lorena